sábado, 24 de abril de 2021

O ARRANJADOR DE PALAVRAS

 

O ARRANJADOR DE PALAVRAS

 

 

 

Escritos

De  1.994 à 98


PAYSSANDU MEMORY UM

 

 

 

Lembro  daquele lugar

Naquele ângulo ali

Naquela quadratura insana

Naquele  portal meu.

 

Lembro daquele tempo

Na maneira de viver

Minha disposição para a vida

Minha persistência , meu otimismo

De criança a descobrir os mundos

Em torno dos núcleos, lembro.

 

 

 

Lembro do moleque

Feito criança  a  exercitar músculos

Em instantes de nada fazer.

 

“o João Vieira de Almeida”

com seu  toque de recolher

no começo da aula  um sinal,

perfilamento no pátio e

o Hino Nacional.

 

A  minha miopia acentuada

Tudo em si, quase um nada:

As primeiras letras,

O alfabeto por   fim

As primeiras palavras, sons sentidos

Zunidos, gritos.                        

Lembro daquele lugar.

 

 

 

 

 

 
 
 
 

Infanto

 

 

CRIANÇA É QUE NEM PASSARINHO

 

EM DIA DE CHUVA,

 

FICA JURURU.

 

 

 

MAS CRIANÇA, NEM SE COMPARA

 

EM DIA DE SOL SÃO GRALHAS

 

MACACOS NO GALHO.

 

AVES RARAS.

 

 

DESLIZE

 

 

 

Juro que vi

Suas mãos trêmulas

Tentarem reconstituir

A estória.

Um filme de terror

Alguma coisa como:

Faraós e tumbas

Humor desalinhado

Grãos no chão

Mágica no deserto

Mentes insanas

E um torpor louco

De quem semi existe

De quem está semi morto.

O homem que replantava   suas árvores

Que mirava seu ângulo correto.

Alguma coisa entre

A nova

E a velha cozinha francesa

Deuses na mesa

Deus no solar, névoa piramidal

Ar primaveril

Aras, eras, Eros, cavalos

Um lago escorrendo solto

Entre vagas e gerânios

Entre tempos e anos passados

Que não retornam

Como uma estrada única

Sempre ir, sempre seguir

Quase voar

Águia, cristal, Asa

Como um filme e fantasma

Entre tumbas, timbres e faraós

Juro que vi.

 

 

 

 

 

 

 

TEMPO NOVO

 

 

No ano do verão

Muito sofri:

Adoeci, cantei um samba

Vi Ciro de patins

Desci a deus-me-livre

Orei.

“Te beijei,

me beijas-te’’

 

 

Tudo como num ciclo

Que se repete

E nunca se conclui

Círculo vicioso

Tempo novo

De novo

 

 
 

 

 
 
 
Reporto-me à minha infância e mais precisamente a cidade de Itabu-

na que fica no Estado da Bahia. Bahia de São Salvador. Uma cidade

cortada por um rio chamado Cachoeira que dividia bem a cidade do

campo com suas fazendas e seus pequenos sítios. Lugares da onde o

meu pai vinha trazendo estórias, aventuras e verdadeiras sagas   que

ele mesmo vivia para trazer, tirado da própria vaca, o leite pros    fi-

lhos beberem. Depois vem minha mãe, minhas irmãs e um monte de

fatos e estórias, desenhados-escritos nestas páginas que neste      meu arrajamento deram de se chamar Payssandu Memory.

 

         

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


OLHANDO O CÉU NA ESTAÇÃO DE TREM

 

 

 

Estávamos ali

Na estação de trem

Olhando o céu nítido e azul:

Helen, que dizia ver crateras

Na lua à olho nu

Mary, que jurava nada ver.

E esse trem que nunca vem.

 

 

Alguma coisa faltava acontecer.

O trem que não chegava

Pra  nos  levar num sem fim;

Eu, que na verdade não fazia

Questão de ir.

A mesma canção que ouve-se

Ao longe e o frio que vem

Pela madrugada clônica

- Explicações sensatas sobre a arte.

E esse céu sem o trem.

 

Mary  nos relata,

Ainda na estação,

Da pequena e má qualidade

Do ar que respiramos...

Pressa inexistente.

É que eu queria a contemporaneidade

Com dinossauros.

 

 

E este céu azul

Qual ponte, estrada

Vagão em que vai

Vagando nossos dias

E nossas idéias vagas.

 

 

 

 

 

 

 


ALEGORIA

 

 

Seres humanos

NUMA FOTOGRAFIA

Para onde irão

Nesta via?

É fim de ano

Vertente de arcanjo

Mares movem manos

Menos hora

Vivalegria.

 

 

Seres humanos

NUMA FOTOGRAFIA

Para onde irão

Neste dia?

Homens entre homens

Aras, Éras

É o que vejo aqui

Nesta

             A L E G O R I A.

 

 

 

 

 

 

 


UM AUTO-RETRATO

 

 

Não sou velho. Não sou jovem

Não vim de outro planeta ao acaso

Não vim tocar clarineta

(pois esta me foi roubada)

Não sou cristão não católico

Nem guardião do tempo

Nem catálogo nem sabedoria

 

 

Sou dançarino de perna quebrada

Rigorosamente cínico.

Sempre acredito que estou acreditando

Minha fala é pequenina

Meu conhecer curto,

Mas não puxo carroça.

Fui da Bahia.

Aquela ali e

Guanabaaaaaaras!

Ancada an nada

Nuvem de verão carregada

Que quer acreditar em mim e

Desaguar por fim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Ó MANINHA

 

 

Diga lá

Ó maninha

Qual o mote?

Qual o pote

Suspenso no ar

Que com olhos vendados e

Taco na mão,

Devo estourar.

Alegria prazenteira

Brindes que caem  no chão.

Diga lá

Ó maninha

Que hora, razão

Bandeira ou função

Zinco brilhando pro céu

Sr., Presidente do comitê

Da Nação do Rolê

Diga lá

Que raiz, que origem

Meu turbã do Sudão

Assim me anuncia

Minha palavra tilintante

Cuspida no chão

Diga lá

Ó maninha

Ergamos o que destruído foi :

A bandeira da esperança

Abaixem as armas

Levantem  as mãos aos céus

Tirem os chapéus

Reverenciem por que não

 

Diga lá meu irmão

Da  boca

 

 

Qual palavra,

Que idioma

Mais belo pronuncia

Do amor, a palavra: amor.

 

 

Pois dancem

Felizes os povos

Soem os sons

De tambores

Abram as portas

Do coração

É o poeta que pede

Por um segundo apenas

Vê que luz

Vê que facho de luz

Iluminada, redundante

Glorificante

Por nós

Seres pequenos

Da via láctea

Entrelaçamento de mãos

Na paz

Pela paz

E com a paz

O mote

O pote da paz

Ó maninha

Para todo sempre

Verdejante sempre.

 

 

 

 

 

 

PAYSSANDU MEMORY TWO

 

 

 

 

 

 

 

Lembro-me

Descendo a ruela de terra

Sou tanto eu aos sete

Olhando o rio volumoso

Rio caudaloso

De pequenas embarcações

Sou tanto eu aos sete

Sentindo o sexo

Entre as coxas

Nave do que sou

De nada, do tempo

Lembro.

Lembro-me

Na aurora

Num raiar das horas

Aos doze tão existencial

Como aos vinte

Antes dos trinta

Tão nunca, tão nada

Eu, nuvem, raio

Neve, nave

Dormência de dedos meus

Assim no tempo

Lembro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CENAS DOMÉSTICAS

 

 

Minha mãe tem na casa

Dois pássaros e duas gaiolas

Cada um numa.

Sua casa, sua pequenina casa,

Manhã antes do café

Rompe com um cantar de notas

A      G      U      D      A      S !

T              I                  N             C    !

Por  vezes vi minha irmã – ao acordar,

Antes que eles dêem a primeira nota

Cobrir-lhes com um pano, toalha

Emudecendo nossos cantantes

 

À seguir vem pigarros dela

Som de panelas e café requentado.

 

Entro eu na história precedido

Por minha mãe

Que na cara dura dá bronca nela

(minha irmã) e liberdade

aos coitadinhos

que a seguir libertados

rompem o dia com seu trinado

T        I         N          C           !

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TARDE ATRAVÉS DA JANELA

 

 

 

 

Lá fora

O céu é nitidamente claro

Na parede branca

Da outra casa vejo

O reflexo do sol

 

E tudo branqueia em luz

 

Um código verde

De relva,

De mata,

De selva, completa o quadro.

 

Com os pés entre as mãos

(por assim dizer)

em fetal posição

a grávida pare o pranto

 

a hora é ouro

e eu sei porque tudo está assim

claro!

O poeta ama as escondidas

E não pode revelar

Através da janela, o objeto amado.

 

A presença desnecessária do sol

Confirma o verão que acende

Em seu peito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

NÃO FOI?

 

 

E me perdi.

Não foi? Não foi?

Ah! Não sei.

 

 

Esta sombra lembra

Alguma fonte,

Alguma torrente.

 

 

O gato pardo pula

E faz como mandei.

Exatamente!

 

 

Rosas caem do céu.

 

 

As mãos de Eva

Nas trevas, nas trevas.

E Deus,

Olhando os ateus,

               os Filisteus.

               os filhos seus.

 

 

Carandiru boitatá

Quaraci mo disse:

In circum maximum oppido.

Foi?

 

 

 

 

 

 

 

 

         

 

               DO PARECER

 

 

 

Parece que foi um sonho

          Uma porta se abrindo

          O hino nacional de

Um país distante

A guitarra de Mr. B.B.king

Um ônibus logo partindo.

Parece que ouço palavras

Que as folhas se movem

Um relâmpago no céu

O pijamas de bolinhas

As bombas do Camboja

Um assombro meu.

Parece uma canção executada

Pela orquestra de

De San Martin.

Parece uma outra aquela mesma

Bigas, aeroplanos

Pântanos do Marrocos

Meu Deus! Que supermercado

 Barulhento

E eu cego a decifrar.

Parece a torre de Pizza

Um homem no caixão

Uma ponte de safena

Arruaça plena

Vôo, vento, coisa feita

Rio de Janeiro no verão

Vagão vesgo, morcegos

Divindades e seus planos

Cantora de ópera

Operação interplanetária

Parece.

 

 

 

 

 

CANTIGA DO MENINO DA MÃO QUEBRADA

 

 

Menino da mão quebrada do beira mar

Por onde passaram Davi  e Letícia

Em direção à Índia

Até descobrirem o Paquistão

 

 

Menino da quebrada mão

Que desce a ladeira

Do Beira Mar

Por onde sobem os jovens

Fumados, cheirados, pedrados

Injetados, turbinados.

 

E por que estais aí sentado

Poeta cansado

Como quem pensa em nada

Menino da mão quebrada

Se minha cantiga é antiga

Como antiga é a Ladeira do Beira Mar

Que mar não tem,

Por onde passam crianças

Fuscas-69, o cheiro de lixo

Denuncia o grau de poluição.

Menino da quebrada mão

Por onde vai minha mente

Meu coração nesta ora

Em que te vejo em ação

No nada

Menino da mão quebrada.

 

 

 

 

 

 

 

 

PAYSANDU MEMORY UM

 

As janelas altas

Meu corpo pequeno

O pátio vazio

O banheiro insalubre

O pátio cheio de crianças

E suas maldades infantis

 

A sopa de gosto ocre

O anfiteatro conquistado

Meu chinelo de dedo

E meus hematomas

Por que  estar ali, por que ficar ali?

 

E lá fora o que haveria

A desesperança de sempre

O fardo da economia sobre o povo

Atrocidades de novo

E fardados, muitos fardados

E o povo e sua alegria

Inexplicável.

 

Os ambulantes, as feiras

Os bancos, as lojas

Tanto pra   se comprar

E nada, quase nada pra comer

A casa no fim da rua

Payssandu memory um

O galo branco que meu pai

Deu aguardente

A casa do advogado, Dr. sei lá o quê

Lotada de glicerina

Que explodiria um dia.

 

O Miltom Galindo Filho e sua genitália.

O campinho do terreno baldio

Paissandu   memory  um, two.

 

 

 

 

O córrego sujo, o lixão

E as águas com vegetação

E areia movediça

Lasqueira e seu sexo febril

Sua infanto sensualidade.

 

O céu que se renovava sempre

Minhas irmãs, quatro mulheres

Minhas roupas em desalinho

(até hoje)

 

 

Minha música nascendo

Minhas saudades da Bahia

A fuga da primeira escola

Fui ao banheiro e não mais voltei

Também pudera, a professora falava javanês

 Brincar no mato, e fazer piadas

A ordem disso Payssandu ,

Meu cão negão

Meu pai de cócoras

Minha mãe no trabalho

Meu tio Nelson

Sua casa perto da Via Dutra, memory Payssandu

Infância, baby blue.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VÁ POLIR ESTRELAS


 

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