O ARRANJADOR DE PALAVRAS
Escritos
De 1.994 à 98
PAYSSANDU MEMORY UM
Lembro daquele lugar
Naquele ângulo ali
Naquela
quadratura insana
Naquele portal meu.
Lembro daquele tempo
Na
maneira de viver
Minha
disposição para a vida
Minha
persistência , meu otimismo
De
criança a descobrir os mundos
Em
torno dos núcleos, lembro.
Lembro do moleque
Feito
criança a exercitar músculos
Em
instantes de nada fazer.
“o
João Vieira de Almeida”
com
seu toque de recolher
no
começo da aula um sinal,
perfilamento
no pátio e
o
Hino Nacional.
A minha
miopia acentuada
Tudo
em si, quase um nada:
As primeiras
letras,
O
alfabeto por fim
As
primeiras palavras, sons sentidos
Zunidos,
gritos.
Lembro
daquele lugar.
Infanto
CRIANÇA É QUE NEM PASSARINHO
EM DIA DE CHUVA,
FICA JURURU.
MAS CRIANÇA, NEM SE COMPARA
EM DIA DE SOL SÃO GRALHAS
MACACOS NO GALHO.
AVES RARAS.
DESLIZE
Juro que vi
Suas
mãos trêmulas
Tentarem
reconstituir
A
estória.
Um
filme de terror
Alguma
coisa como:
Faraós
e tumbas
Humor
desalinhado
Grãos
no chão
Mágica
no deserto
Mentes
insanas
E um
torpor louco
De
quem semi existe
De
quem está semi morto.
O
homem que replantava suas árvores
Que
mirava seu ângulo correto.
Alguma
coisa entre
A
nova
E a
velha cozinha francesa
Deuses
na mesa
Deus
no solar, névoa piramidal
Ar
primaveril
Aras,
eras, Eros, cavalos
Um
lago escorrendo solto
Entre
vagas e gerânios
Entre
tempos e anos passados
Que
não retornam
Como
uma estrada única
Sempre
ir, sempre seguir
Quase
voar
Águia,
cristal, Asa
Como
um filme e fantasma
Entre
tumbas, timbres e faraós
Juro
que vi.
TEMPO NOVO
No ano do verão
Muito sofri:
Adoeci,
cantei um samba
Vi Ciro de patins
Desci a deus-me-livre
Orei.
“Te beijei,
me
beijas-te’’
Tudo como num ciclo
Que se repete
E nunca se conclui
Círculo vicioso
Tempo novo
De novo
Reporto-me à
minha infância e mais precisamente a cidade de Itabu-
na que fica
no Estado da Bahia. Bahia de São Salvador. Uma cidade
cortada por um rio chamado Cachoeira que dividia bem a
cidade do
campo com
suas fazendas e seus pequenos sítios. Lugares da onde o
meu pai
vinha trazendo estórias, aventuras e verdadeiras sagas que
ele mesmo
vivia para trazer, tirado da própria vaca, o leite pros fi-
lhos
beberem. Depois vem minha mãe, minhas irmãs e um monte de
fatos e
estórias, desenhados-escritos nestas páginas que neste meu arrajamento deram de se chamar
Payssandu Memory.
OLHANDO O CÉU NA ESTAÇÃO DE TREM
Estávamos ali
Na
estação de trem
Olhando
o céu nítido e azul:
Helen,
que dizia ver crateras
Na
lua à olho nu
Mary,
que jurava nada ver.
E
esse trem que nunca vem.
Alguma
coisa faltava acontecer.
O
trem que não chegava
Pra nos
levar num sem fim;
Eu,
que na verdade não fazia
Questão
de ir.
A
mesma canção que ouve-se
Ao
longe e o frio que vem
Pela
madrugada clônica
-
Explicações sensatas sobre a arte.
E
esse céu sem o trem.
Mary nos relata,
Ainda
na estação,
Da
pequena e má qualidade
Do
ar que respiramos...
Pressa
inexistente.
É
que eu queria a contemporaneidade
Com
dinossauros.
E este céu azul
Qual
ponte, estrada
Vagão
em que vai
Vagando
nossos dias
E
nossas idéias vagas.
ALEGORIA
Seres humanos
NUMA FOTOGRAFIA
Para onde irão
Nesta via?
É fim de ano
Vertente de arcanjo
Mares movem manos
Menos hora
Vivalegria.
Seres humanos
NUMA FOTOGRAFIA
Para onde irão
Neste dia?
Homens entre homens
Aras, Éras
É o que vejo aqui
Nesta
A
L E G O R I A.
UM AUTO-RETRATO
Não sou velho. Não sou jovem
Não vim de outro planeta ao acaso
Não vim tocar clarineta
(pois
esta me foi roubada)
Não sou cristão não católico
Nem guardião do tempo
Nem catálogo nem sabedoria
Sou dançarino de perna quebrada
Rigorosamente cínico.
Sempre acredito que estou acreditando
Minha fala é pequenina
Meu conhecer curto,
Mas não puxo carroça.
Fui da Bahia.
Aquela ali e
Guanabaaaaaaras!
Ancada an nada
Nuvem de verão carregada
Que quer acreditar em mim e
Desaguar por fim.
Ó MANINHA
Diga lá
Ó
maninha
Qual
o mote?
Qual
o pote
Suspenso
no ar
Que
com olhos vendados e
Taco
na mão,
Devo
estourar.
Alegria
prazenteira
Brindes
que caem no chão.
Diga
lá
Ó
maninha
Que
hora, razão
Bandeira
ou função
Zinco
brilhando pro céu
Sr.,
Presidente do comitê
Da
Nação do Rolê
Diga
lá
Que
raiz, que origem
Meu
turbã do Sudão
Assim
me anuncia
Minha
palavra tilintante
Cuspida
no chão
Diga
lá
Ó
maninha
Ergamos
o que destruído foi :
A
bandeira da esperança
Abaixem
as armas
Levantem as mãos aos céus
Tirem
os chapéus
Reverenciem
por que não
Diga lá meu irmão
Da boca
Qual
palavra,
Que
idioma
Mais
belo pronuncia
Do
amor, a palavra: amor.
Pois dancem
Felizes
os povos
Soem
os sons
De
tambores
Abram
as portas
Do
coração
É o
poeta que pede
Por
um segundo apenas
Vê
que luz
Vê
que facho de luz
Iluminada,
redundante
Glorificante
Por
nós
Seres
pequenos
Da
via láctea
Entrelaçamento
de mãos
Na
paz
Pela
paz
E
com a paz
O
mote
O
pote da paz
Ó
maninha
Para
todo sempre
Verdejante
sempre.
PAYSSANDU MEMORY
TWO
O
céu é nitidamente claro
Na
parede branca
Da
outra casa vejo
O
reflexo do sol
E tudo branqueia em luz
Um código verde
De
relva,
De
mata,
De
selva, completa o quadro.
Com os pés entre as mãos
(por
assim dizer)
em
fetal posição
a
grávida pare o pranto
a
hora é ouro
e
eu sei porque tudo está assim
claro!
O
poeta ama as escondidas
E
não pode revelar
Através
da janela, o objeto amado.
A presença desnecessária do sol
Confirma
o verão que acende
Em
seu peito.
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