sexta-feira, 18 de junho de 2021

Estante Virtual

 

Nessa Estante Virtual eu postei livros e textos que ao longo do tempo, consegui editar com pequena tiragem. Estas publicações tiveram como referencia os textos que aqui seguem, alguns carecendo de revisão. Entre os textos estão:

- Quixote da Quebrada (peça teatral)

- Rápidas Toneladas de Palavras  (poesia)

- Baú de Qualquer Coisa (poesia)

- Poemas da Paixão Solta no Papel (poesia)

- Vá Polir Estrelas (poesia)

- O Arranjador de Palavras (poesia)

- Museu do Esquecimento (poesia)

- Memórias do Agora Mesmo (prosa e poesia)

terça-feira, 27 de abril de 2021

QUIXOTE DA QUEBRADA De J.Cordeirovich

 

 QUIXOTE DA QUEBRADA

De J.Cordeirovich

 

 

Limita-se este texto, a ser apenas um espetáculo inspirado no clássico  “Dom Quixote” de autoria de Miguel de Cervantes,  aqui só fragmentos são. São apenas trechos de um devaneio da personagem revisitada por este autor que vos escreve agora.

Atenção:

O espaço cênico é livre, com poucos sinais onde mesmo a cena acontece, sendo uma praça, a taberna, um salão, uma catedral. Na verdade, as caracterizações das personagens definirão a época mais que o cenário que não existe concretamente, apenas adereços para compor a ideia de lugar.

Na abertura: Um palhaço dá as boas-vindas ao público e deixa algo de mistério no ar.

Palhaço: Boa noite distinta e digníssima plateia. Deixe-me apresentar aos senhores e senhoras esta nossa encenação teatral. Meu nome é Agenor....o palhaço cheio de amoooorrr (faz palhaçadas com gestos). Nesta história que vamos contar, um homem que não é palhaço como eu, mas é “mutcho loco”!! (faz graça) é apaixonado por uma tal donzela, e faz de tudo....mas de tudo mesmo, para tê-la em casamento. Acham até que ele, como eu, não bate bem dos pinos. E.....bem;  deixemos a história acontecer para os olhos, ouvidos e sentimento de todos vocês. Eu saio de cena nesta hora...mas SURPRESA! O palhaço Agenor.....cheio de amoooorrr, voltará...me aguardem (sai).

Trilha:

Cena 1. (Quixote, Sancho e Dançarina)

(Quixote, que dorme entre livros, de maneira desconfortável é acordado por Sancho. Sancho, portando um pequeno espelho tenta aproximar do rosto de seu senhor que se desvia enquanto acorda.)

Sancho: Senhor acorda, acorda!! Estais a delirar já faz tempo.

Quixote: (despertando empunha uma espada). Venham! Venham cães famintos, pois matarei a todos na ponta da minha espada...Venham moinhos de vento, tempestade, cavaleiros...

Sancho: Senhor, acorda! Acorda!...Estais a sonhar!! Aliás, tamanho pesadelo este lhe é... Vês, até urinas-te nas vestes.

Quixote: (desconsertado se protege do vexame) Não vês Sancho, que estão a vir em nossa direção e nos atacarão sem piedade…Proteja-se homem, proteja-se....E antes que nos matem, esquartejarei seus corpos e arrancarei suas cabeças....(Sancho pega um copo com água).

Sancho (atirando-lhe um copo com água abaixo do rosto, é melhor): Acorda, meu senhor, não há nenhum inimigo por hora (com o espelho) ...

Quixote: Como assim? Para que este espelho homem?....

Sancho: Para veres o quanto estais a delirar, depois de ler tantos livros de história de Cavalaria...Olha pra teu rosto senhor, vê o quanto sofres...

Quixote: (vendo-se no espelho) E sabes por que sofro? Sabes por que metade da humanidade sofre neste mundo, Sancho?

Sancho: Não faço a menor ideia.

Quixote: Por amor. Metade da humanidade sofre por amor. Pelo excesso, ou por falta dele.

Sancho: Eu heim....que sentimento mais difícil, senhor?

Quixote: E sabes por quem estou QUASE, a enlouquecer, a pirar de vez?

Sancho: Quase? O senhor disse quase... (Irônico).

Quixote: Por ela, ...Dulcinéia, minha princesa. (Levanta-se e anda). A mulher que me povoa os sonhos todos. Sabes (abrindo uma garrafa de vinho e bebendo) o quanto eu a amo? Ah... não fazes ideia desse amor, Sancho. Ninguém na terra, nem no céu faz ideia dos sentimentos que trago neste peito, por esta donzela.

Sancho: Por isso não tens atinado bem das ideias homem. A vida nos chama pro trabalho. Pra labuta.

Quixote: (refletindo) Trabalho....amar já da-me muito trabalho. E tu aceitas-te ser meu escudeiro fiel. Não aceitastes?

Sancho: Sim, cometi essa besteira...mas olha, só pra esta encenação, tá certo?

Quixote: (mudando tom). Preciso fazer algo de grandioso para chamar a atenção desta mulher...preciso talvez vencer batalhas ou nela morrer para conquista-la.

Sancho: Precisas é acordar de vez e ir trocar suas vestes molhadas.....

Corte: trilha.

Som de música cigana e uma dançarina se põe a dançar na frente deles. Dança por algum tempo. Após sua dança dirige-se a Quixote:

Dançarina: (num tom irônico) trago notícias de sua amada ó sofrido homem por amor…Deixa-me ler vossa mão senhor...

Quixote: E o que dirás?  Que ela me ama, que me deseja, que me quer no seu leito agora e para sempre?

Dançarina: Dê-me também uma taça de vinho, eu trabalho melhor alterada (ri e dança um pouco mais). Sancho serve-lhe vinho (os dois na frente da cena e ela bebe). (Ironiza). Esse teu vinho doce parece groselha....

Sancho: Teatro, esqueceu?

Dançarina: Apesar de que tem alguma coisa nessa groselha que....Já sinto minha mente esquentar (ri). Uau!!! Bateu.....

Sancho: Vê lá o que vais dizer ó cigana...meu senhor já anda muito perturbado...iludi-lo seria ingratidão de tua parte.

Dançarina: Deixa comigo amigo, eu sei fazer meu trabalho. Inda mais quando estou umas doses de groselha. digo, vinho, a cima (ri).

Sancho: Que seja honesto e ético o teu trabalho.

Dançarina: Honesto? Mas quem nesta taberna é honesto, a não ser a distinta plateia...pois neste quase drama só temos mal caráter...a começar por nós três (ri e dança mais um pouco).

Quixote (dando-lhe a mão) O que vês...ante tantos livros de histórias inventadas neste mundo, o que lês em minhas mãos cigana?

Dançarina (lendo a mão)  Vejo teu passado, teu presente e o pior homem, teu futuro.

Sancho: Senhor, olhe no espelho, acorda! Essa dançarina......

Dançarina(a Sancho) Deixe-o sonhar...deixo-o sonhar...., pois o que será dos homens sem ao menos os sonhos, e nestes sonhos, o desejos? (ri).

....

Quixote:  fala cigana, diga tudo...não me esconda nada, nada...preciso saber. Preciso saber sobre ela, esta mulher que aparece em meus sonhos e por quem tenho tão desesperado amor.

Dançarina: Calma lá homem....mulheres....mulheres....(ri)

Quixote: Não mulheres como se fosse qualquer uma. Mas esta mulher que povoa meus sonhos.

Sancho: Quer dizer, pesadelo senhor...verdadeiros pesadelos é o que tenho visto.(cigana solta-lhe a mão).

Dançarina:(agora séria). É preciso escutar teu silencio. É preciso calar o espírito para ouvir as vozes verdadeiras do sentido de tudo....da vida, por que não? Se é que me entendes.....

( sai a dançar por um lado enquanto entra por outro na cena, Dulcinéia).

Dulcinéia: Verdade seja dita...Cavalos pra todo lado essa cidade tem. Pois quase me atropela uma carroça de feno. Ceis tão à imaginar...(próxima a plateia). Tão a imaginar, que lá fora, fora desse teatro, ao invés de prédios tem casas do tempo da colônia. Feitas de madeira e palha. Que não há, que as ruas de terra são, que  automóveis e só cavalos aceleram o movimento das carroças. E damas e princesas como eu...circulam pelas avenidas sem shopping ainda? Pois é.

Trilha:

Cena 2:

Quixote: (inebriado ao ver Dulcinéia): És tu....tu linda princesa?

Dulcinéia: Claro, quem mais poderia ser?

Quixote: Minha Princesa Dulcinéia....dá onde viestes??

Dulcinéia: (fria) Do camarim ô piradão! E vim para lhe dizer que não sou areia pro teu caminhãozinho não.... Acho melhor parares de dizeres coisas em meu nome...

Quixote: Que coisas digo eu, minha flor?

Dulcinéia: Que lhe amo, que lhe quero, que sou sua amada. O mimi já corre solta nos bastidores. Dia desses indo à fonte do reino uma velhinha interpelou-me perguntando, o que eu fazia que não me casava com um certo cavaleiro sonhador. Na hora, até me animei, mas a seguir vim a saber que o cavaleiro sonhador era tu. Tu coisa ruim.

Quixote: Ora, ora...apenas escrevi-lhe alguns versos...

Dulcinéia: E os espalhou por ai. Pregou pelas cercanias, nas hospedarias e paredes do palácio. Palhaço! Tá louco? Pare com os versos, os poemas, as crônicas, as canções. Pare! Me deixe em paz.

Quixote: Mas por quem luto eu? Qual sentido desta vida minha, entre todos estes contos, romances e lendas...se não tirar da melhor, uma bela e inacreditável história de amor....(cai-lhe de joelhos).

Dulcinéia: (que se abana esbaforida) dizes bem, uma inacreditável história de amor.  Era só o que faltava..., ser a paixão de alguém que nem conheço. Pega teu rumo homem, segue tua vida...vai. (Aponta). Te taco uma Maria da Penha nas costas, vais ver.

Sancho: (Apaziguador) Senhora, perdoe-me lhe dirigir a palavra, mas, meu senhor, não está tão lúcido como imaginas....

Dulcinéia:  Sim, sei que não está lúcido. Caso contrário o meu irmão já teria lhe dado uma lição. Lucido ou não, não me interessa suas histórias, criado Sancho.

Sancho: (à Quixote) Não vos falei senhor, por isso o espelho. Para veres que sonhas com o impossível…Que teus sonhos são impossíveis.

Dulcinéia: Impossível e inacreditável esse amor. (Desdenha) Era o que me faltava veja só.

Quixote: (com livros a mão) mas que sentido faz essa vida sem amor? Aliás sem teu amor ó minha bela princesa.... Por quem respiro eu, por quem ando, falo, penso....

Dulcinéia: (ironisa) Coitadinho...coitadinho. (pra plateia). Gente, como pode heim...será que ainda há homens que amam alguém dessa maneira. Eu, heim? Que babento! Santo Deus.

Uma Ama adentra à cena:

Ama: Senhora, senhora Dulcenéia, vosso pai a chama para dentro...Venha.

Dulcinéia: Mas acabei de me afastar do seu leito....

Ama: É,  mas assim que deu por sua falta, exige sua presença.

Dulcinéia: Pois vá e o acalme, coloque sobre ele aquele cobertor feito de palhas e de alecrim...logo estarei voltando.

Ama: Cobertor de palhas?

Dulcinéia: Aquele que comprei nas Casas Bahia, em dez prestações o ano passado.

Ama: E se ele vomitar novamente?

Dulcinéia: Chame o gerente, o tenente, o presidente...(com enfado) ora, dê um jeito menina!!

Ama: (ao sair)  Só vim alertá-la...com licença.

...

Dulcinéia: Tá, tá, tá....Ouviste. Papai não anda nada bem. Entendeu? Bem, qualquer hora, um pum e o velho vai-se....por tanto, antes que me esqueça, fique sabendo que faço parte do grupo das Donzelas, ”Pero Indepiedente”. Temos um time de futebol, de mulheres renderas. Fundamos um partido, essas coisas. Já ouviu falar em empoderamento feminino? Pois é, E agora vou-me.

Quixote: Mas antes de ir faça-me um pedido, diga um desejo seu, o mais impossível ...possível(ajoelhado ainda, clama).

Sancho: (ao público) Isso não está me cheirando bem, 1...

Dulcinéia (cara de quem não entende) ....Ora....

Sancho: Senhor! Senhor Quixote...(ainda com o espelho).

Quixote: (levanta-se) Calma homem (bebendo mais) provarei a esta donzela o quanto a amo, realizando seu mais impossível desejo....

Dulcinéia: (reflete) Well,... bem, prefiro pensar melhor, a peça está só começando não é mesmo, vou ter com papai que não está muito bem e noutra cena te digo o que desejo de mais impossível (pisca à plateia e sai).

...

Quixote: (animado) Viste Sancho, o quanto minha Princesa me ama, sim, como todo grande amor ela tem dúvidas, faz-se de difícil....Elas assimsão assim,  homem...Mas eu sei que lá no fundo esse amor é imenso...É bem provável que ela queira que eu conquiste alguma cidade, que eu vença batalhas, alguma batalha e tu...tu serás meu fiel escudeiro (já bêbado) pega as armas...venha...vamos  lutar....

Sancho: Isso não está me cheirando nada bem2...

 

Luz

 

Cena 3:

(A trilha deve ser gregoriana, como se estivesse num ambiente da Igreja católica). Padre e Sobrinha caminham enquanto se falam.

Padre: O que dizes minha filha, teu tio não está bem?

Sobrinha: Bem? Padre ele está louco de pedra. Parece-nos que leu tantos livros de Cavalaria que agora pensa ser um cavaleiro e que vai conquistar castelos por aí.

Padre: E o que desejas que faça? Que lhe dê conselhos? Mude-lhe as ideias.

Sobrinha: Conselhos? Conselhos não serão suficientes Padre…preciso que vossa reverendíssima pense em algo mais radical. Algo que possa trazer meu tio Quixote à realidade, afinal....

Padre: Alguns vivem o mundo real filha...outros preferem o virtual, se é que entendes o quero dizer.

Sobrinha: Virtual senhor Padre? Meu tio vive a loucura  do sentimento real. Viver e morrer por amor.

Padre: Dizes que ele leu, leu...

Sobrinha: E muito...percebemos que ele começou a ficar deste jeito depois destas leituras, pesquisas, estudos, conclusões. Sabes que convocou um vizinho desempregado, para que o acompanhe nessa loucura?

Padre: Como assim…explique melhor...

Sobrinha: Quer que o vizinho se torne ajudante dele, que agora se diz Cavaleiro!?

Padre: É grave!

Sobrinha: Gravíssimo.... Então Padre, o que podemos fazer por ele?

Padre: Creio que já sei o que podemos fazer....

Sobrinha: Por favor Padre, o que podemos fazer para detê-lo nestas loucuras? ...

Padre:(ao acaso) Queimar!!

Sobrinha: (assustada) jogá-lo na fogueira?!!

Padre: (explicando). Não minha filha, ainda não…Vamos mandar recolher seus livros e queimar....

Sobrinhas: Todos?

Padre: Todos os livros que o levaram a esta situação. À esta loucura.

Sobrinha: De ciências? De história? Romances, lendas e Contos de Cavalaria...? Tudo?

Padre: Se queremos por um fim nesse dilema, cortemos o mal pela raiz. Todos! Eu disse queimar todos, será uma solução.

(Cai a luz e um candeeiro ou vela em cena).

Uma vela acesa no centro da cena, deve queimar uma folha de um livro qualquer e ouve-se apenas a voz do Padre que fala no escuro:

(Trilha)

Voz off: Queimem-se livros de ciências, de história, livros de geografia, de Cavalaria…queime-se todos os livros da biblioteca de Alexandria, da Biblioteca de Babel, papiros, livros de constituição das democracias, livros queimem, chamas ardam…queimem...queimem amém....(sob a trilha).

 

Nota 1:

Palhaço: Olá, aqui o palhaço Agenor....também como o  personagem central desta ...desta encenação. Cheio de amooorrr(faz micagens)...Estão acompanhando bem nossa história. Um cara loco, apaixonado. Uma princesa que num tá nem ai com ele.

Miguel de Cervantes escreveu um belo clássico né. E o autor deste texto se aproveitou e se inspirou na história original. Espertinho né?

E mais, por ser o Palhaço Agenor, o palhaço cheio de amor....também estou apaixonado....É! Querem saber por quem? Antes do término desta encenação vocês saberão.... O palhaço Agenor.....cheio de amoooorrr, voltará...me aguardem (sai).

 

 Cena 4: Sobrinhas e tia.

Vestidas de época:

As meninas num improvisado salão de beleza, umas cadeiras, uns recostos pro pescoço e umas cuidam   no trato da beleza como se fossem pra uma festa. São sobrinhas do Rei. E criada.

Celena: (que lê um livro, enquanto mexem no seu cabelo) ...que dizem desse homem minha tia? Esse tal Quixote.

Tia: (a trafegar com alguma coisa nas mãos): que é um sonhador sem tamanho...

Méga: Dizem que como todo humano normal, sonha com o juízo final....

Tia: Méga...Méga (respira) as vezes me dá medo sabia, o seu modo de falar...

Celena: Liga não tia, ela é meio desmiolada...

Méga: Desmiolada é você que anda sonhando acordada também....tal qual esse louco Quixote, como todo ser humano...eu não, eu tenho ideias próprias...Não me deixo levar por fake News.

Celena: (lendo) A, é?....cabilé (há,há,há)...eu heim?

Tia:  . Vocês duas se acalmem, afinal o mundo é para os sabidos minhas caras sobrinhas, e ademais o universo pretendido nem sempre é alcançado...(serve chá).

Méga (pensativa): Tia...tenho medo do futuro....

Celena: (ainda lê)...uma bomba atômica nos espera a todos (pausa) Tá escrito aqui ó....(mostra o livro).

Tia: O que estas a dizer menina Celena...tu tens ainda a mente pequena...tens muito o que aprender sabia?

Méga: Sobre o amor, sobre a vida, sobre a maldade que há neste mundo....

Celena: E eu nem me chamo Raimundo...(desdenhando).

Méga: Eu disse Mundo! Vê tia, ela não diz coisa com coisa...ou melhor: não lê coisa com coisa....e quer entrar em conversa alheia.

Tia:  Meninas.... Eu tenho pena dos ingênuos e puros de coração. Não, não queria que fosse assim. Mas alguma coisa em mim, depois que vosso tio foi para a guerra, a vossa tia ficou assim.

....

Méga:(mudando o assunto) Tia, a melhor coisa de vir a sua casa...(enquanto degusta) é provar seus lanchinhos....E seu chá de açafrão....

Celena: E saber mais sobre as coisas do reino.

Mega: Sobre a vida além...sobre o amor....

Celena: O amor, a dor, as guerras….Esse tal Quixote....

Tia: Minhas queridas sobrinhas, o mundo além deste feudo é de muita coisa ruim. Parece que não se aprende nuca.  Como diz Celena, é muita dor, muito sofrimento. É disso que o ser humano se alimenta ao longo dos séculos....

Entrada da dançarina com a música “Vozes” (youtube) Dan Grasso.

Após dança, sem nada dizer....sai de cena a dançarina.

Tia: (Indo mais à frente da cena...olhando o imaginário céu) Meninas venham ver.... É o cometa não é?

Celena: Cometas são maus presságios sabia? Tá escrito aqui.

Tia: Numa noite assim de cometas no céu eu descobri o amor, sabiam?

Celena: (aspira fundo) O amor...há o amor.... (trilha suave)

Tia: E vieram as alegrias, as tristezas. Dúvidas e certezas. Choro e ranger  de dentes. Disputas por poder, tramas. Crenças falas. Desgraças. A arte mihas queridas, talvez seja um alento pra tanta coisa ruim que há neste mundo. A arte supera todas essas mazelas, quando nos enche de esperanças e fé num futuro melhor...Como agora esse cometa nos inspira. Depois dele, o que virá?

Méga Mega: (muda o assunto) Que seja, que seja tia, mas agora temos que ir...a peça precisa continuar. Afinal o Cavaleiro da Triste figura, hoje virá nos visitar...andemos. Saiamos de cena, para em breve voltarmos (num alarido de movimentação cênica, saem de cena).

 

Cena 5:

Estaleiro, Quixote, Sancho depois o Padre. (um balcão).

 

Estaleiro: (a limpar o balcão) não entendo o que queres de mim ó sofrida figura.

Sancho: Senhor, meu senhor quer que o eleja cavaleiro....

Estaleiro: Mas quem tem esse poder são os Reis, os Soberanos. E não um pobre estaleiro como eu.

Quixote: E quem és tu, se não o Rei deste Castelo....

Estaleiro: (a rir) Castelo! Estais a delirar homem, aqui é uma humilde estalagem e...

Quixote: Pare, não digas nada. Sabemos eu e meu criado que és Rei e que neste Castelo onde estamos és a autoridade máxima (curva-se).

Sancho: (ao estaleiro) Não lhe disse senhor....Por favor finja ser vossa majestade e torne meu amo um Cavaleiro.

Estaleiro: Mas para isso tem que haver a participação da Santa e Amada Igreja. E o padre anda muito ocupado com suas celebrações.

Sancho: Celebrações.

Estaleiro: E além do mais, cobram sempre uns trocados pra qualquer benção.

Quixote: Não será por conta disto, dinheiro não me falta.

Estaleiro: Eu estou só avisando aos senhores como a coisa funciona. Se tem grana rola, se não tem: amém.

Sancho: Isso é o de menos (apanha do bolso um celular). É da Paróquia? Posso falar com o Padre? Ah...é o senhor Padre. Então...deixa eu falar uma coisa. Precisamos que o senhor venha até a Esta....digo, até o Castelo na Rua dos Algozes 17, sim....todos sabemos que era uma Estalagem e que hoje é um lindo castelo....Tá bem, aguardamos. (assim que desliga entra o Padre).

Padre: E o que há de tão urgente que me acordam na noite para vir a uma Esta... (é interrompido por Sancho).

Sancho: Castelo, padre. Castelo.

Estaleiro: (apontando Quixote) Então senhor Padre, nosso amigo aqui deseja tornar-se Cavaleiro e quer a nossa anuência e benção.

Sancho: Padre, desculpe, como o senhor chegou tão rápido aqui nesta cena?

Padre: Eu vim de uber....mas deixemos de conversa fiada e vamos logo ao que interessa. (Dirige-se a Quixote) Queres tornar-se Cavaleiro….

Quixote: O quanto antes possível.

Padre: mas isto tem um custo?

Sancho: Custo?

Estaleiro: Eu avisei, tem um preço, o Padre quis dizer....Vocês tem alguma contribuição para dar ao Padre e suas obras da Igreja.

Sancho: cartão de débito e crédito ou boleto? É pra Igreja?

Padre: Nem me lembrem da Igreja rapaz. O cupim deu nas madeiras e gastaremos os “tubos” para trocar todos os bancos e altares....etc etc e etc. Muito gasto, muito gasto amigos.

Quixote: (com um pequeno saco de dinheiro) Vá lá,  que seja, estas eram minhas economias para investir nas batalhas. Nas armas e munição, mas já que é preciso. (dá ao Padre, o dinheiro).

Sancho: A vista..., dá desconto né Padre?

Estaleiro:  Vamos iniciar a cerimônia logo, tenho muito o que fazer.

Padre: (à Quixote) Então te ajoelha.

(Se possível entrar outros pessoas em cena para dar ar de cerimônia)

Estaleiro: Eu, como autoridade máxima desta estalagem digo, Castelo....

Com esta espada sobre os ombros assim (toca nele) lhe nomeio Cavaleiro do Meu Reinado (em off)... que de reinado nada tem. Cachaceiro!..., digo cavaleiro és a partir de agora.

Padre: Eu lhe abençoo para sempre, seclorum amém.( Música gegoriana ao fundo).

Deve ser acrescida as vestes de Quixote, alguns galardões, se possível um elmo e uma espada decente, por que a partir de agora ele é um Cavaleiro.

(Luz e trilha para troca de cena).

...

Palhaço: (entra sozinho treinando espada com um cabo de vassoura) Olá, tô aqui treinando…nunca se sabe né? Sim, sou o palhaço....(espera o público falar seu nome) O palhaço cheio de amooorrr.... Mas não faço só graça. Faço também ameaça (ri) Rimou né...mas é sério, caso seja necessário até o fim desta encenação, estarei com a minha espada na mão para lutar.....Depois eu conto por QUEM, devo lutar. E se ainda não falei o nome dela, a culpa é do autor dessa bagaça....(sai).

 

Cena 6

 Entrada triunfal: Da milícia palaciana. Três ou quatro soldados e um capitão entram a marchar.

Capitão: Pelotão!!! Alto...!

Marcondes: Sim, estamos auto determinados a parar esta marcha sem igual e sem sentido (arreando tralhas).

Leco: Sentido.

Capitão: Quando digo alto, é pra parar mesmo, dar um tempo...tendeu?

(voz altiva) Arriar armas,(imitam montar acampamento).

Leco: Arriar as calças?

Marcondes: Sim, as causas não resolvidas durante nossa marcha inútil por este mundo de meu Deus.

Capitão: (mudando assunto) então mãos à obra soldados, que mundos e fundos temos a enfrentar! Descansemos por aqui nossas carcaças e amanhã logo cedo. (Olhando o céu): Com o céu estrelado como este. Noite de cometa....

(Vão se ajeitando na cena e deitando pelos cantos)

Leco: Cometa?...

Marcondes: Cometa. Foi sim um cometa que nos fez caminhar tantas léguas que eu não aguentaria mais um passo...Tô quebrado.

Capitão: Pare de reclamar solado Marcondes e prepare seu pela porco, enquanto eu vejo o cometa. (com uma luneta).

Leco: O cometa! O cometa!

Capitão: É o cometa. Leco. O mesmo que um dia já passou por estes céus.

Marcondes: Em 1705, creio que foi essa data...um cometa cruzou nossos céus e muitos até de mataram antes da passagem dele por nós (ri) Eu rio agora…mas creio que a natureza tem muito a nos ensinar. Não pelo temor, mas pelo seu poder transformador de tudo.

Leco: Tem medo da morte?

Marcondes: Não. Da morte não Leco, tenho medo dos homens.

Leco: Os homens são maus...

Marcondes: É só o que se sabe sobre a humanidade....

Leco: A maldade.

Capitão: Calem vossas bocas e durmam.

Entrada de Sancho e Quixote:

Quixote: Sancho....veja estes homens acampados...Vamos convoca-los para a luta.

Sancho: Senhor, acho melhor deixá-los em paz, afinal são soldados e parecem cansados, ouça como roncam...

Quixote: E como venceremos as batalhas, sem um pelotão desses. (já vai acordando-os). Homens, levantem…as armas...a guerra nos espera!!

Capitão: (soldados acordando) Mas...mas quem és para nos despertar do nosso descanso....

Marcondes: Quixote! És tu? Sim, aguardávamos nesta trincheira o teu comando....

Leco: Comando....Aguardamos o comando.

Sancho: Comando ou sem mando...isso não me cheira nada bem 3.

Quixote: Vamos enfrentar o inimigo na raça, sem armas...afinal não sobrou nenhuma moeda, somente minha espada.... Agora serei eu o Cavaleiro Capitão deste pelotão:

Capitão: E eu um ex capitão....é isso.

Sancho: O que você acha....não está reconhecendo ele...

Ex-Capitão: Agora estou vendo que ele é o grande Senhor Quixote, Cavaleiro de La Mancha.

Quixote:  Sabia que me reconheceria, ex-capitão?

Leco: Ex- capitão? Por que?

Ex-Capitão: Por que nessa peça quem manda é o autor e ele me destituiu num tocar de tecla....Agora tenho que fazer parte do exército desse....(irônico) desse digníssimo senhor...

Quixote: Montemos em nossos cavalos e rumemos para a batalha final....

Marcondes (rindo) Montar em nossos cavalos? Só se a gente montar, me desculpe Senhor Quixote, nas costas uns dos outros.

Ex-Capitão: Nossos cavalos morreram de cede. Não temos montaria.

Leco: Não temos nem água pra beber. E agora?

(Movimentação em cena, pegam as tralhas e saem em marcha).

Na cena próxima estão as mulheres do Reino, em torno de Dulcinéia:

 

Dulcinéia: (ao celular) Que casar nada menina, eu pretendo curtir minha vida de solteira por algum tempo. O que? Cuidar de criança, trocar fralda, fazer mamadeira, tá louca? E os pretendentes então…cada um que me aparece filha…Uns bitelões que não tomam banho faz um mês, outros metidos a sabidões, querem me convencer pelo papo furado que todos teem. Eu não estou no desespero, não estou matando cachorro a grito entende?  Tô fora. Sim, pode ficar sossegada Neide, quando eu escolher um pretendente eu te aviso pessoalmente ou pelo zap.(desliga)

Amiga 1: É isso ai Dulce, não se renda....

Amiga 2: Dulcinéia é dura na queda, ela não se entrega fácil.

Dulcinéia: E não mesmo...tá pensando o que? Esse papo de Cavaleiro romântico e pegador, tô fora. Claro que quero me casar, mas não com qualquer um, entenderam....?

Amiga 3:  Não tiro sua razão Du....Lembra comigo, casei com aquele carrasco do castelo, pensei: o cara é carrasco mas é gente. Engano minhas queridas. Na primeira briga o cara me deu um mata leão que quase me mata. Fugi para bem longe até ele me esquecer, e aqui estou.

Dulcinéia: E a demais, esse negócio de Cavaleiro Sonhador, já me cansou sabia...(lendo revista)....olha aqui as figuras, os pretendentes que aparecem.

Amiga 3: Mas afinal não está fácil encontrar bom parido não. Alias nunca esteve desde a fundação deste condado. Alias a única que se casou bem por aqui foi Malvina, que alias o nome já diz tudo. Ela era Má, mesmo (ri). Aqui tá difícil encontrar um bom partido.

Amiga 2: Nem partido, nem inteiro se é que vocês me entendem.... Tenho pensado seriamente em entrar prum convento ai....

Amiga 1: E o pior é que se você aceita o primeiro que aparecer, acaba se desiludindo, afinal estes tempos são de guerra e não de paz.

Amiga 2: Tristes tempos, né mesmo Vanda?

Amiga 1: E não? Veja meu caso. Amei, me dei mal, matei....é matei mesmo o peste, fiquei presa dez anos numa masmorra e orra! Agora to livre leve e solta...

Amiga 3: Pronta pro próximo né Zete?

Amiga 2: Pro próximo assassinato?

Amiga 3: Mais dez anos na masmorra?

Amiga 1: Gente, que delírio. Eu estou livre para amar...

Dulcinéia: Ótimo. Como você está livre para amar, que tal escolher um desses heróis aqui na revista? Olha isso....que tipão!

Amiga 1: Esse Cavaleiro do Zodíaco não sei não,....

Amiga 2: E este Cavaleiro Amostra Grátis....

Dulcinéia: Gente, eu tô brincando só pra distrair, por que hoje, quer dizer, agora...é a hora da cena final....vamos lá (luz e trilha)

Luz.

 

 

.....

(três pancadas na madeira e a voz) Que Entre os convidados.....

Todos deverão entrar em cena e se posicionar em algum lugar demarcado para o final da peça:

Sancho e Quixote (entrando).

Sancho: Senhor....creio que é nesta praça que tudo deve acontecer.

Quixote: Homens, posicionem-se em pontos estratégicos para me dar cobertura. Já que tenho que duelar por Dulcinéia, o farei nem que seja meu último ato...

Sancho: Última cena o senhor quer dizer.

Palhaço: Boa noite senhoras e senhores....fui colocado nesta peça para uma disputa sem tamanho. O coração de Diolinda....

Ama: Dulcinéia.... (as amigas a repreendem fazendo um xi).

Palhaço: Dulcelinda, a mais bela princesa deste povoado. Prepare-se Quixote, por que eu posso dar meu bote (cai)....

Dulcinéia: Meninas,  é cada uma que nos aparece....

Amiga 1: E não....

Amiga 2:  Que tal bater em retirada...

Dulcinéia: Calma....tudo pelo bem do teatro, eu quero ficar para ver no que vai dar.

Estaleiro: Promoção na minha Estalagem, duas taças de vinho e você bebe a terceira de graça....Gente tá difícil vender heim? Povo vem aqui fica só no papo. Peça ou não, a galera tem que consumir alguma coisa uai.

Palhaço: (ao estaleiro) Te prometo estaleiro, vencendo essa luta eu comerei todos os hamburgeres que fritar....

Estaleiro: Agora sim...e não deixe de experimentar o vinho da casa.(animado).

Quixote: Escolha as armas bufão....jogo de cartas, pif-paf, xadrez ou dois ou um....

...

Prima e Padre entram na cena:

Prima: E por que esse duelo homens?

Padre: Por quem derramam sangue?

Quixote: Pela mais bela flor deste jardim...

Dulcinéia: Ui!

Palhaço: Pela Lua que reflete na noite escura.

Dulcineia: Ai (as amigas lhe acolhem).

Alguém: Senhoras e senhores. O coração tem razão que a própria razão desconhece. Estes dois senhores pretendem disputar está que ali está. Por declararem em todas as mídias seu amor.....por ela.

(lendo um livro) Segundo consta nos autos. Quixote, personagem de Miguel de Cervantes, emprestado aqui como representante de uma maioria sonhadora e apaixonada pelo impossível. Cabe dizer que o mesmo não tem nenhuma particularidade positiva a não ser que sua riqueza é de origem lícita (.....(quase em off) foi paga pra isso dizer).

O Palhaço ator desta Comapnhia, não passa de um enganador pois nem palhaço o é. Se faz dê para atacar jovens indefezas no camarim que eyu vi (também pagaram por isso). Bem...que vença o melhor. Padre! Prossgiga.

....

Padre: Em nome de pater, de mater e de filho....abençoo-o esta contenda e que vença o melhor.

Palhaço: ( a espada em punho) Sou contra o que dizeram a mesmu respeito, sacanagem heim diretor? Vamos sigamos a peça...(explicando pra si mesmo) eu agora com a espada ameaço o tal Quixote. (....) Olha bem, isto é uma espada....ela fura, esse furo sangra, esse sangue escorrre....tendeu....

Sancho: (para Quixote) Senhor....esse palhaço não está de brincadeira....

Ama: Ele quer ver o circo pegar fogo. Com toda certeza.

Estaleiro: Ele quer dar um cheque-mate no jogo.

Quixote: (para o palhaço que se mexe todo fazendo o povo rir) Pois venha de lá com sua espada....que eu vou (apresenta uma arma de fogo) daqui com meu bacamarte.

Padre: Epa! Assim também não. Que vocês se matem tudo bem, mas tem que ser uma luta honesta.

Dançarina: Honesta? Mas quem nesta taberna é honesto, a não ser a distinta plateia...

Ex-Capitão: E o meu pelotão, viu dona dançarina.....todos os meus soldados são honestos para com a pátria armada, digo amada.

Quixote: Ex-Capitão: melhor o você ficar de boca fechada....Empreste sua arma ao palhaço....

Ex-Capitão: Minha arma não tem munição....

Sancho: É só pra encerrar a peça ô....

Ex-Capitão: Ok....tudo bem....tá aqui minha arma com munição. Aliás bala de prata se é que vocês me entendem....

Palhaço: Muito bonito hem primo, eu que lhe confiava tanto....

Ex-Capitão: Nada posso fazer, o autor deste evento trama os mais duros golpes....

....Improvisar o fim do texto como se estivessem sem falas (explico)

...

Dulcinéia: Senhores, parem esta contenda. Vamos fazer uma coisa, já que o autor nos largou aqui....E eu sou a bola da vez. Do auto do meu poder de personagem digo aqui nossas últimas palavras: GAME OVER....

Todos: Game Over!!! (som de bit e uma música animada para os atores darem as mãos e agradecer ao público).

 

J.Cordeirovich  (autor)

Junho19.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 24 de abril de 2021

RÁPIDAS TONELADAS DE PALAVRAS (poesias)

 

FICAR CONSIGO

 

 

INTEIRO,

POR ALGUNS JANEIROS,

POR ALGUNS JANEIROS.

 

E QUE VENHAM SETEMBROS

E DANÇAS E LOAS

QUE NOS RETARDE UM TEMPO

DENTRO DA CHAMA

QUE NÓS ACENDEMOS.

 

E QUE VENHAM AS TRAMAS

OS ENLACES, OS DRAMAS

E CHOREMOS NENHUM VERSO

NEM QUASE RIMA.

 

E SE A PALAVRA VALE POUCO

E O SILENCIO OURO VALE,

MUDEZ ENTÃO

PRA NÃO QUEBRAR O CLIMA,

NÃO DESGASTAR A RIMA

NA COMUNICAÇÃO


Contundente

 

Dente,

 

Que morde a carne

 

Que sangra,

 

Escorrendo vermelho

 

Pelo tapete

 

Voador.

 

 

Naquela tarde

 

De pleno verão

 

Fora da cena,

 

Acena pra mim

 

outra mão.

 

Escorre então o sangue

 

e decorre do vôo

 

Impreciso

 

num decidido

 

Não.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No dia que lhe der saudades,

cante uma palavra.

“esperança”

 

Na hora que sentir sede,

use essa palavra.

“justiça”

 

No momento que quiser o verde,

pegue essa palavra.

“harmonia”

 

Ante a beatificação do homem,

anuncie essa palavra.

“sonho’

 

Quando a hora for chegada,

tente uma palavra.

“tolerância”

 

Se, no entanto, nada for feito,

pegue outra palavra.

“paz”

 

 

E se por fim, tudo estiver desfeito,

escreva essa palavra.

“amor”

 

e busque sempre a explicação.

 

 

 

 

 

 

 

ela

 

Inscreveu-se como flor

Contornando minha pele

Perfumando tudo com seu odor.

e o que se revela

A partir do instante cor

Flor e flor

Sensualidade de uma Emmanuele;

 

 

 

Se a França aqui não é,

Que de sorte sois e sou

Em apenas um, nós,

Aura clara e germe.

Um precipício de dor

É o que nos impele

Por amor, amor.

Ao que em nós, se adere.

 

 

Vem-me então em glórias gotas

Um torpor,

Suave som  suor

Quando o que chamamos

Seja o que for

Flor e flor

Em nós, olor

Lippia citriodora

Up to date for

Flora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E VEM COM A HORA

 

 

O poema de Delfos

A Lua e seus enigmáticos ares

Olhai o verso

Com o qual inscrevo

Nossas mais recônditas

E inenarráveis viagens

 

 

Vem com a hora

Um presente fugaz

Pesadelo.

Como se o segundo fosse único

Enredados no acaso

Qual fosse então um novelo

Não de linhas nem de lãs

Mas de idéias.

 

 

Vem com a hora

E é como se as palavras

Lavradas no nada,

Tudo quisessem dizer:

Rasura minha,

Um poema

Som, sou,

Ser.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

JÁ.

 

 

 

 Leu um romance?

Já.

 

Cantou  uma cantiga?

Já.

 

Beijou,

Amou alguém na vida?

Já.

 

Fugiu de intriga?

Já.

 

Procurou uma saída?

 

Encontrou-a feliz da vida?

Já.

 

Teve ciúmes?

 

 

...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A procura

 

 

Procuro na sala

Tu não estas,

Procuro no quarto

Já passou por aqui.

Na cozinha;

As sobras da mesa denunciam:

Por aqui já passou.

E eu que vim aqui

Para dizer quero-te

E mais uma vez, te quero.

Mas no jardim nem sombra tua

No telhado o gato parado

(na leveza desse momento)

não verbaliza uma idéia de teu paradeiro

nem cá embaixo,

o cãozinho que transita pela casa, arfando

(como quem ladra pra mim)

perguntando:

-         estas só?

-         No que eu respondo de pronto:

-         Sim.

                                                                    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUANDO RECUSAS UM BEIJO

 

Por simplesmente não querer

Ou por um motivo qualquer,

A sensação de perda do instante

Me toma o peito.

 

E na dúvida não sei se no beijo

O mais importante no ato fica sendo

O fato da conquista desta boca

Ante a recusa chora meu peito

Quietinho e desprotegido

Tenta me distrair, com a recusa

Um livro que não leio

Enquanto perdido, vejo:

 

Como num filme imaginário

Concluo um pensamento:

O meu anseio

E por vezes muitas, nele

Te beijo

E na pura imaginação cortejo

E tenho entre os braços

O prometido e desejado

Corpo.

Que agora constato e vejo

Que é meu.

 

 

 

UM GOSTO

 

De palavra na boca.

Um rosto que se instaura na tela

Sois bela, sois bela.

 

Quero afinal a tarde

Entre gerânios e credos

Solfejas pois, nua no salão vazio.

 

Mãos atadas ao labor

Decorrem versos e por si, dor

Poeta de profissão

Respira fundo num fulgor

E vaga com a lua pálida lá fora

Nos céus da tarde.

 

Quer o fogo

E ao mesmo tempo paz

Tanto faz,

Guerras, fogo, acordo

Dança consigo mesmo

A sombra

Deixar estar num avermelhado

Inexplicavelmente belo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Papel

 

 

 

Caneta; oba!

Agora eu me vingo

E finco nele

Futuras idéias

Qual verdades científicas

           que certificam previsões

Conclamadas visões

Grifo, silvo

 

Na SELVA das formas

Na máfia dos sons

Me perco sem endereço

Pateons das poesias pregressas

Desarticuladas métricas

Moinhos de tintas

Tontas tonalidades

Verdades!!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VEJO-TE TÃO FEMININA

 
 

Cuidando das tuas coisas,

Guardando algumas peças de roupa:

Tolha, meia, calcinha.

 

Vejo-te tão menininha

Apesar do tempo já marcar a tua face,

E tuas coxas não serem tão roliças

Como antigamente.

 

Estais aqui na minha frente.

Mulher, fêmea, presente.

Completando todos os meus momentos,

Realizando os desejos que eu, quase humano, tenho.

 

E se é porque te beijo assim mil vezes,

O maior dos desejos seria eternizá-la;

Pelo menos em minha mente.

Como isto, não creio possível,

Deixo então, contigo, meu humano amor

E que ele fique gravado

Nos autos do eternamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poeta, um clamor.

 

 

Hei, poeta!

Dá-me um pouco de tua poética

Sem fios,

Da vertente sonora

Do teu mais complexo buscar

Nas escolas literárias,  uma saída

Na musicalidade, um pulsar.

 

Hei, poeta!

Dá-me um pouco de oxigênio

Pela boca

E dos póros faça-me inflar o pulmão,

Como quem se expressa na pressa

Sentidos sentimentos, ora essa,

Porque não?

E que movem o inanimado

E desperta o distraído

Recompõe dos esquecidos

O furor de uma Nação.

 

Hei, poeta!

Queres me dizer de uma vez

Uma ou duas palavras

E que na insensata embriaguez

Possa eu mastigá-las

E por acaso e num breve instante

Ora, ora

Ver, das trevas profundas

A mais brilhante aurora.

 

 

Hei, poeta!

Ouça bem o que lhe digo

E se escrevo em palavras

 

 

 

Neste endereçamento inexato,

 busco contato contigo

Poeta!

Personagem da pura imaginação

De idealização.

 

 

Hei, poeta!

Dá-me aquilo que não cessa

Futurologias

Planetas inabitados

Siber conexões

Claves, apoio

Notas musicais

 

Hei, poeta!

Por que não ouves meu pedido,

Uma vez mais,

Eu leitor aturdido

Carente de rimas quentes

E de métrica tão irregular

Qual ar

Conspirações absurdas

Contradições obtusas

Preleções sem sentido

 

Hei, poeta!

Atenda ao meu pedido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IMPOTENTE

OU NASCER PARA MORRER.

 

 

É O PAI, NA FAIXA DE GAZA

NA CISJORDÂNIA,

TENDO O FILHO DE POUCA IDADE

ALVEJADO POR UM TIRO

DE METRALHADORA ASSASINA.

 

CHOQUES ISRAEL-PALESTINOS

MATAM MAIS 19.

PALESTINO BEIJA SUA FILHA DE

18 MESES

SARA, ANTES DE SER ENTERRADA

NABLUS (CISJORDÂNIA)

“NASCER PARA MORRER”

 TALVEZ UMA QUESTÃO CULTURAL

ESSE RETRATO DA MORTE

QUE HORA SE APRESENTA

TALVEZ UMA QUESTÃO DE ETINIA

ESSE QUADRO DE HORROR

DE DOR QUE INVADE NOSSOS OLHOS

EM FORMA DE NOTICIÁRIO.

OS LIVROS DA SABEDORIA HUMANA

DAS CIÊNCIAS HUMANAS, POR ASSIM DIZER,

SERÃO FECHADOS PARA SEMPRE

E A BARBÁRIE VAI IMPERÁ.

ESSA É A REGRA DO JOGO

ENTÃO ESTAMOS ESTRESSADOS

DESESPERANÇOSOS

PRECISAMOS DE FREUD

 

 

 

 

 

 

 

PRECISAMOS DE NOSSO PAI

PRECISAMOS DE NOSSA MÃE

 

 

DELE A MÃO SEGURA

DELA O ÚTERO QUENTE

E  NÃO ADIANTA LAMENTAR-SE

 

IRA CONTIDA, EM VÃO.

QUIETUDE PLENA,  ILUSÃO.

TIROS TILINTAM NO JORNAL DA TV

A SOPA LOGO SERÁ SERVIDA

E UM CORAÇÃO DE POETA

ENTRE A TAQUICARDIA DO AMOR

LAMENTA O SOL

QUE ENSISTE EM BRILHAR

SOBRE A POEIRA, O CAOS.

PALESTINOS ARREMESSAM PEDRAS

CONTRA TROPAS ISRAELENSES

NO CONFLITO  EM RAMALLAH

ONDE ALGUNS PALESTINOS, ÁRABES

E JUDEUS TOMBAM PELA CAUSA.

HÁ SEMPRE UMA CAUSA.

HÁ SEMPRE UM MOTIVO

NESTE CICLO SEM SENTIDO

NASCER PARA MORRER

OU SERÁ MELHOR

NEM NASCER.

Ah, quem sabe do deserto lunar

Ecoe em vão o som da palavra

Paz..

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                           CABEÇA

 

 

 

Estava,

Estive

Com o umbigo perfurado

Por um dardo

Vazando ali

Das entranhas

Impurezas e do acaso,

Outro se não um vasto

Alo de cores frias

Escorregadias

Que perturbavam

A noite e o dia, entrelaçados.

Das horas que então...

Me ocorria o fato

De eu ter que despertar

Do pesadelo

Instaurado dentro dela.

E por não vê-lo

Além muro, além fronteira

Razão centro

Da perfuração por dentro

As cores, o torpor

Veio então o esgotamento

E por fim o desfalecimento

Dela,

Cabeça que atormentada dorme no nada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MÃOS A OBRA

 

Um índio enfurecido

Salta de dentro de mim

Como se fosse um fogo primal

num grito primaveril.

 As células da natureza

De propósito se interagem

Na poesia que vai contaminando.

O ato da mão sobre a folha branca

Então, vertente que não se estanca

O claro de tudo querer

Não por acaso. Não só por ser poeta

Água evaporando nossos vultos do passado,

Passando ao nosso lado

Onde se encontra saída  e entrada

Além da conta,

Contaminando.

Por todos os lados,

Da raiz

 Dos sonhos mais ocultos,

Das formas disformes

Do já deformado.

Que trançam sua métrica

 

 

 

 

 

 

 

 

E informam suas propostas no papel

Que o vento fez cair o vél

Num céu de letras

Não por si, não atoa

Invadindo com o vento

Todos os cômodos, todos os cantos

Todas as comas da pauta

Por onde eu, nomeado agora

Poeta, adentro,

Poeta e suas dúvidas

E seus entraves verbais

No instante que pensa

Improvisa, rabisca

No nada do branco do papel

Que não se intimida

Ao expor-se na vitrine do céu

Imperfeito céu

Primaveril

Marketing de fósseis

Escavados na poeira

Das esquecidas estantes.

 

p.s.

E lá vem a enfermeira com mais uma injeção, dá-se por contente ao ver-me tombar sobre a escrivaninha como quem diz, adormeci um leão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não havia nada que esgotasse

 

Aquela hora, fugisse então

De mim todo momento sentido

Da arte vindo como num átimo

O vento soprando lento

 

 

E só pra anunciar na minha cara,

És poeta, não como quem pergunta

Mas como quem confirma, o que se difere

Já temia eu, poeta.

 

 

Pois então se tem e te vem vertentes

De idéias, palavras perdidas do acaso

Âmago e perguntas

Confirmando ali a  cada letra imprensa

Inconstância, verso, temor

Do acaso vir a ser nesta hora,

Nesta mesma mensagem e

Em que me entrego

 

 

Por que eu sou raio

Sou som

Sou então,

 

P    A   L   A   V   R   A

 

Manchada no papel da alvorada

Que sempre renasce fortalecida

Se em ti mereça ser classificada

No rebuscado  caderno

Teor e sentido

Não por nada

 

 

 

 

Paquidérmica

Epidérmica

Palavra

 

 

F     A      L      A     R       E       S

 

MUSA DE NEGRO VESTIDO

SANDÁLIA NO PÉ

ESTÁLO

ESTILO QUE CADENCIA

SEU

ANDAR E FALA.

 

DANÇA PRA MIM

QUE SOU POETA

E TE ADIMIRO

COM FOME DE GAVIÃO

 

 

SERÁ QUE É PRA MIM AQUELA

PALAVRA?

AQUELE PALAVRÃO?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rua nicácio pinto, 279, bloco b

Apartamento 32 vento e depois

Praia do futuro...

 

 

 

 

Leve

 

 

 

Um dia temos nome e endereço

E pro pib do país, um preço,

E formas, e idéias,

E saídas e entradas.

 

 

 

Um dia não temos nada,

Um corpo estagnado,

Um lugar demarcado.

E a fria terra dos assombrados.

 

 

 

Mens. à Douglas Martins.

 

 

 

 

 

 

 

Da série: as últimas horas do milênio:

 

Papel e papeis amontoados,

As vezes abandonados e

Blocos, cadernos, folhas,

Caderneta, bloquinho, agenda

Perdidas e sobra de folhas

Bordas de jornal, papel de embalagem de pão

De alguma padaria do Centro Velho

E tuas nádegas , tuas coxas

Meu delírio , os teus beijos

E ainda bem que existe

Esta hora que do milênio

É uma última, sem retrocesso

Como o progresso dos fatos

A evolução e a essência redundante

Do momento da descoberta da coberta

E teu corpo entre

E devaneios e silvos teus

Ainda bem que existe silêncio

Pra ser escutado, pra ser sentido

Pra ser envolvido por nossos

Gemidos poéticos com os últimos

Instantes do milênio

E ainda bem que existem canetas, lápis, pincel,
resultado de tintas

E atritos

Motricidade, idéias

Tarde através da janela

E calçada molhada refletindo

Cegamente o sol, luz, automóveis

E mãos de mulher.

Pessoas, mulheres, mãos lavando

E que existe água, panos, baldes

Limpeza de pele, superfície de brilhos intensos

De reflexos , de luz, de mulher

 

 

 

 

 

 

 

Lavando paredes, concretos,

E telefones e sons e o pessoas

Que chamam na tarde

E então, após devorar-te

Arte

Renasceria sem morrido Ter.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“E se fui da caça um viril caçador

Que espreita sutil, e

 Ataca veloz

 

 

 

E devora sua presa

Minha fera hora enjaulada,

 

E se por nada

Fiz por travesseiro

O teu roliço traseiro

Que me sustem,

 

Te amo desbragadamente

Meu bem.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MENU HOSPITALAR

 

 

Na vasilha transparente

O líquido num branco pálido

Oculta a batata e as postas de frango

Que repousam no fundo

Junto aos temperos e legumes

 

 

Uma farinha de milho em flocos

Aguarda sua vez

Assim como o vinho

Colher e a boca pra degustar

 

 

 

O vinho é invenção minha

E o copo dágua

Supre esquecidas necessidades

 

A enfermeira sorridente

Instruída pelo hospital

Imagina-me por trás da máscara

Um paciente exemplar

 

Mas se a sopa a minha frente

A boca oculta desta princesa

Faz-me lua imaginar

Que esteja assim sorridente

Tem-me como seu pretendente

E não custa pra num repente

Um beijo eu lhe roubar.

 

 

 

 

 

 

PeQuenAs  LeTraS

 

 

E aquele medo de ser pego

as escondidas

onde o silencio impera

e nada se explica,

e dele mesmo ouço saírem

silvos vivos de sensações

De quem tocada por dentro, fremente

Geme e sente

No vale dos assombrados

ecoando tais canções

E até os monges que vivem

em cavernas, exilados

captam tais trinados

e com elas fundem mantras

e buscam resultados sagrados

Mas é apenas o amor, que as escondidas

Expressa na profundidade

Paraíso-Hades

Vida.

 

 

II

 

O lanche da tarde

Foi bela ao sol

Próximo da janela

Umas curvas inexplicáveis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vivas de encanto

Enquanto eu, santo

Anjo em pecado,

Sorvo delicias do teu pescoço

Seio, cintura, coxas

Que assimilo com os dedos

 

Deixando marcas na sua memória;

E como quem datilografa. Grafa.

 

Sorri o riso que negava

E faz-me poeta que pensou,

Tudo renunciara.

 

E pela rua cantando

Sairia anunciando

Primaveras no seu peito

 

Anja intocada

Não por nada,

Dá-me tua mão,

desejo

Somente a tua mão

E já basta

Um paraíso no beijo.

 

E derretido

Os nervos, as sensações

Em névoa cobre, zinco

Na quentura da fornalha

Que é a vaga tua

Onde evito,

Sem atrito,

Penetrar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jogos

 

 

Por mais que eu estudasse

O significado de alguns

Jogos humanos

Jamais entenderia

Aquela que a frente da batalha

Se expõe de peito aberto

Se rende aos tiros do adversário

Como se não fosse possível

Omitir-se

 

Entra na arena e sente de perto

O bafejar dos tigres

Deus meus! Qual a questão em pauta

Jogo, complexo, jogo

Onde se quer chegar?

Nos dados e nas cartas

Que se põe sobre a mesa imaginária

Onde se expões inimigas

Opositoras mãos,

Então

 

Homero vai para um lado

Ulisses noutra direção

E no fundo escuro do poço

Ouve-se o eco de quem,

 

 

 

 

 

 

Evitando o lamento

Constata a verdade

Que hora se mostra

Nítida

Transparente em nós

Partilhados

E sós.

 

 

 

 

 

 

 

Aos pedaços no Cairo

 

Temia eu um dia

Ter o sentimento

Que agora em meu peito

Se instaura

 

Me sinto

Aos pedaços no Cairo

Balança enferrujada das horas

Pêndulo entumecido e estático

De Faucout

 

Temia eu essa instancia

De verbos no nada

De versos sem sentido

Do nada acontecido

E não mais uma dupla em ação

Ulisses vai para o Norte

Homero noutra direção

 

 

 

 

 

 

 

Quem me faltem as forças

Que ceguem-me os olhos a luz

Que eu fique em silêncio

No maior dos retiros

Pois estou sem rumo

Perdido na Abey Road.

 

 

Eu que vivi durante décadas

A beira do lago azul em Cantervill,

Hoje no deserto sem nome

Vejo fantasmas ao redor

E penso fugir de tudo

E de todos, talvez uma saída

Pro Alabama Grill.

 

 

 

 

 

 

 

Mulher com pelo no peito

 

 

E quando as vezes se sente vontade

De não mais se estar ali

Naquele lugar

Que sempre se esteve.

 

E quando a violência vaza pela janela

Nas mãos do adolescente

Que a queima roupa liquida o professor

Tempo de horror.

 

E de alguma maneira se desintegrar

Sem retorno nem trégua

A violência vazando

 

 

 

 

Horror crimes

Provocando temores, arrepios

E também sensações

Extremamente desagradáveis

Sensações sem nome as vezes

Sem classificação.

 

Lá uma queda de pressão

Um batimento cardíaco

Descompassado

Sensações de perda e é claro,

Palavras ofuscadas na sala

E o violento vazando

Entre nós

 

Mulher com cabelo no peito

Um signo na tela

Porrada na boca

Um sangue vazando ali

(vê no que dá amar o amor)

 

a mulher com cabelo no peito

mais máscula que fêmea

oposto do oposto

nem mulher nem homem

nem rosto

é a violência apenas

um artigo selvagem

e nenhuma paz

uma configuração risível

do que hora previsível

também cabível

dentro desta que é a questão

mulher de cabelo no peito

esfinge

acalorada canção.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há anjos

A minha volta

E assassinos

As escondidas,

O temerário

Ponto e

A virgula.

 

 

 

.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                          Ficou no passado

Imaculado

A imagem daquela dama

Bailarina de encantos

 

Como uma dádiva

Um fenômeno

da natureza

Do acaso

 

Que levou-me aos sete cantos

Do mundo

E me trouxe de volta

 

E no meu desencanto

afirmo no entanto,

era

literalmente flôr.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Masturbação frasal

 

Bom dia

Quê?

Vou indo

Porquê?

Eu e você.

Toma um café?

Agora é sua vez

Parece que vai chover

Outra vez?

Tá na hora

Evite falar

Você sabe o dia?

Não conte o pecado

Procura alguém?

Lado a lado

Onde que mora

Sim

Busco-te as oito, ok

Não

Onde vamos?

Dá-me tua mão

Chega logo?

Boa noite

Não faça cerimonia

Te amo.

Cai o pano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

retrocesso

 

A pena suave

Deslisa sobre o papel

Déu em déu

Um riscado assim,

Uma voz de homem

Clama no jardim

 

Doce cadim de pausa

Num apedrejar

De letras

Eletrificadas

 

Resvale num vale

Teu charme ecumênico

Domenico instante

Segues adiante

Sem dar pistas

Nem explicação

 

 

Que palavras que eu diria

Autor atormentado?

Na tela

A outra face do insucesso

Voz de homem no processo

Verso

Retrocesso.

 

 

 

 

Por dentro da sala

 

 

(este poema foi escrito assim que o autor levou uma pancada na cabeça quando tentava encontrar aquela panela especial pra fazer a sopa do dia).

 

 

Fechada escura

Por onde, na penumbra

Do breu

Nada se configura

 

Há um ser sincopado

Como a música

Ao lado

E que nela contém

Como um anjo

Segredos insanos

 

Ora totalmente definido

Como um bicho

Da natureza

Sã, só e presa

Enebriada e tesa

 

Que mal se sabe racional

Tão próximo pois, do humano

Dentro da sala

Fechada escura

Sarcófago, sepultura

 

 

Há um quase humano ser

 

Onde essas reflexões

Profundas

Ou mais rasas,

Rosas reencarnadas

O leva pra regiões brumosas

Densas,

Quase profundas

 

(ai)

Na ociosidade da sala

E do tempo

Entre a ausência de verbo

E consequentemente de ação

 

 

Culmina, nesta hora

Ali

Pregressa a figura inferma

E infame

Que de poeta então

Se proclame

 

E saia roubando

Dos outros as palavras

Para construir

Nos interiores das salas

 

 

Uma cadeia de versos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gutemberg alçou vôo

Descabido sobre as nossas

Orelhas diluídas

 

 

Alvorecia

Na Sibéria

E na casa mia

 

 

Desencucada e parva

A turba responde de pronto

Aos últimos estímulos

Do líder tonto

 

 

Orquestração ofuscada

Pelo recochetear

Das bombas

Cégas e tontas

 

E eu escutante,

Por um instante

Talvez.

 

 

Avisto Guernicas

Repetidas nas paredes

O Oriente está em guerra

Conduz-me a mão o dano

Não tenho nenhum plano

Ao concluir

Este poema.

 

 

 

Há alguém do outro lado da linha?

 

Que possa sintonizar-se comigo

Através da palavra

Uma idéia, um princípio

Alguma certeza fundamentada

Nalguma filosofia

Da fisiologia

Que não seja da violência

Da fome

Do ciúme?

 

 

Há alguém do outro lado da linha?

Que desejando nada de meu

Seja apenas gentil

Poupe-me as balas de fuzil

E me ouça uns reclamares

Deste instante desconfortável?

 

 

Há alguém do outro lado da linha

Que me estenda o braço

E envie uma ou duas palavras ?

Há alguém do outro lado da linha

Que por engano tenha aí ficado

E ao ouvir-me delirante

Teça versos petrificados

E que ao invés de canção harmoniosa

Atire palavras e falares desconexos

E me faça compreender em vão

Entre o fim e o princípio

Alguma saída para o meu impasse

 

Há alguém do outro lado da linha

Que não encurtando palavras

Me envie um discurso via sensorial

Que me toque fundo lavando-me a alma

Cure-me da solidão, o mal?

 

Há alguém do outro lado da linha

Que não apenas escute minha rouca voz

Que pelas ondas sonoras repercute

Em desesperadas interjeições

E que busca das saídas a menos óbvias

Pra um outro instante fundo

Em nós comunicante e comunicador

Que alivie um pouquinho

Do discursante, a dor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Correndo vi sua irmã

(etílica visão)

 

Nua na fonte

Desnuda no monte

Pelada na tela

Juro que a vi

Sem roupa no trem

Semi nua, amém

Molhada por dentro

Cercada no centro

Pela turba  voraz

 

E vi mais

 

 

Correndo vi a irmã sua

Perdida e nua

Olhando pra lua

Pensando no trem

Procurando alguém

Viajando defronte

Tramando no monte

Gozando na fonte.

Bebendo também.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 MACARRONE

Dedicado ao Vladi.

 

No vale vasto

Tremulam ramos encoroados

Do mais tenro trigo

 

A máquina trituradeira

Mói os grãos

Que do chão foram recolhidos

 

Uma farinha branca na fábrica

Transformada em massa

Onde máquinas fiandeiras

Tornarão a pasta

 fios quase cristalizados

 

Já dentro do supermercado

Será pelo caixa registrado

A saída e o preço

Daquele produto, naquele dia

 

... uma água fervente

 cozinhará seus fios amarelados

e ao molho vermelho serás juntado

 

na mesa serás servido

pelo cozinheiro mor*, o chef de improviso

e ao ser provado

pela minha boca

instante de bom bocado

paraíso do prazer

só por isso eternizado

vida de amigo

parabéns meu jovem

 

MAAA  QUE  BÉÉLO MACARRONE!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

COMO FIGURA

PINTADA NO NADA,

LETRAS QUE SÃO SONS,

SIGNIGICANTES

PALAVRAS,

DUAS PEDRAS E SEU CAMINHO.

 

OBS RESGATAR NO RASCUNHO POEMADESENHO.

 

 

 

 

 

 

                                      CANÇÃO PERDIDA

 

 

 

 

UMA BOCA

UM PEIXE DENTRO DELA

ENTÃO

UM NAVIO NO CENTRO

UMA BOCA DENTRO DELE

PRESTEZA DE INVENTO

 

DOIS CORPOS, TENS,

NUM ÚNICO INTENTO

VERSO, BOCA DENTRO

LUA BROWN NOITE TOWN

CANTO

CANTIGA

CATAVENTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REALIDADE

EXPLICITA

NUM TUDO

DO AMOR

FLUEM

DOIS CORPOS

LEVES

SOB O COBERTOR

E LOGO

PRA INCOMODAR,

VEM UM TAL

ALVORECER

NOS CHAMAR.

 

 

 

 

Breve canção do fim

 

 

Não fui suficientemente belo

Para conquistá-la

Pra formar um elo

Entre a minha  e a alma tua

 

Não compreendo a realidade

Em que se situa

Deus no feminino

Hino de louvores vãos

Por quanto de esperei

No mais escuro da sombra?

 

Sobre o muro do jardim do Éden

Contemplo o céu que nada tem

Nenhum astro, nenhum asteróide

Nem satélite algum que me traga

Notícias tua.

 

Não fui suficientemente galante

Perfumado, envolvente

E me escapas pelas mãos

Quando, justamente, tentava te prender

Pelos dentes, carentes.

 

Mas tempo nenhum , hora nenhuma

Essa nossa

Do desapego, do desterro

Da desesperança em nós.

 

Não fui suficientemente belo

Então descubro-me  assim

Como num jogo de dados

Em que por pontos

Sou derrotado, exterminado

Da lista riscado

E no mais sujo do lixo jogado

E fim de jogo, recolha os dados.

 

CONCLUSÃO

 

E POR QUE ACABAR

O QUE AINDA NÃO COMEÇOU

SE TEUS PEITOS EM  MINHAS MÃOS

ESCAPAM

MAS TUA BOCA ENTRE MEUS LÁBIOS

ESTÃO

NÃO TEM FIM O QUE NÃO COMEÇA

SÓ O QUE SE REVEZA EM

LUZ E ESCURIDÃO

DOCE E AMARGO

FRIO E CALOR

CHAMA DE OPOSTOS

ENVOLVENTE ENTE

QUE SOBRE A CAMA

DELICADAMENTE SALIENTE

EXPÕE-SE EM JOGOS E SE DÁ

SEM MEDO

POIS NÃO TERMINA

O QUE EM NÓS COMEÇA

E EU HAVIA JURADO NÃO ENTENDER

NÃO ENALTERCER SEU JEITO ESCURO

VELADO

OCULTO

DE SER MULHER

DAMA QUE SE INTUE

E DOIS MIL VERSOS DA AURORA

CHAMA-SE DAMA, FÊMEA,MULHER

O QUE TENHO AO LADO

PELO MENOS NESTA HORA.

 

 

 

 

 

 

 

 

SEM SAÍDA

 

 

Se faço críticas

Sou radical,

Se concordo pura e simplesmente

Não tenho opinião

Se digo não,

Preferia ouvir um sim

E quando sim,

Quer que eu diga: concordo

 

Me sinto sem saída

Amarrado até o pescoço

Sem condições de agir

Num labirinto mental

Onde a fera indomável

Aguarda-me com um único olho

 

Ouço ruídos pelos corredores

Avalio os dessabores

Provo do vinho

Já há tempos servido

Vejo através do terno vidro

E não destino minha estadia

Se vou ou se fico

Se canto ou calo

 

Fujo pelas alamedas do papel branco

Que em contraste com a tinta

Em palavras, apenas,

Vou me transformando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não  havia nenhum Leão sentado na pedra

 

 

Então demos as mãos

Fizemos jus aos ditados

Corremos riscos

Brincamos no campo

Com a carne louca

 

E ela se prendeu

Aos dedos

Aos laços mantidos

Sedo ou tarde

Haveria de não ser

 

E nem se escrevesse

Um romance

Ou o roteiro

De um filme:

 

Não havia nenhum Leão sentado na pedra

Nem figura de linguagem

E eu, como um educador

Fora do seu tempo

Tentaria lhe descrever

O insustentável

Enquanto que você riria

Dizendo:

Esse “cara” tá maluco.

 

 

 

 

 

 

 

O real

Bate em minha cara

Com luva de pelica

No culto oculto fica

Quase lambe, suga, beija

Cegamente na noite, no paraíso

Não perdoa torpe

O corpo, o outro

O mix, a mistura

A saída pra envergadura perfeita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Viram um sol por aí?

Um céu de abril

A resplandecer

A luzir?

Ante a admiração

Dos que passam?Um lar, aqui

Neste endereço vão

Um céu então,

Nuvem, um raio claro?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vamos?

 

Para o Alabama

Para cama

Cama, cama

Sê sacana

Anuncia esta fama

E fala faz fala

Entre dúvidas

Me entalhas

Com sua navalha

E seus louvores

Luva, Lua nua

Como ondas

Que insanas

Ondulam em

Altos mares

Pra onde estares

E ventarolas

E vão e ventos

Em dissonâncias

E vamos nós

Tantos elementos

A passarem

Pro Alabama

Para cama

Cama, cama.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Substrato

 

O trato

Da canção

Que trato

Das interferências

Entre as interdependências

Tão salutares

Que  agora jazem

No vazio

 

 

 

Ao longe

Onde ao lounge

Onde na fonte

Se não nascida

Nem na ida

Nem na volta

Distante, antes

Depois de tudo

Nalgum lugar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Empurras tua carroça

Leva teu feno nas próprias costas

E se Picasso mostra-nos

Na televisão

E do retrovisor

Inexistente

Você vê

As distâncias

Na vasta rodagem

 

 

 

 

 

 

 

 

VAMOS!

 

PARA O ALABAMA

PARA CAMA

CAMA, CAMA

SE SACANA

ANUNCIA ESTA FAMA

E FALA FAZ FALA

COMO DÚVIDAS

ME ENTALHAS

QUAL SUA NAVALHA

E SEUS LOUVORES

LUVA, LUA NUA

COMO ONDAS

QUE INSANAS

ONDULAM EM

ALTOS MARES

PRA ONDE ESTARES

E VENTAROLAS

E VÃO E VENTOS

E VAMOS NÓS

TANTOS ELEMENTOS

A PASSAREM

PRO ALABAMA

PARA CAMA

CAMA, CAMA.

 

 

D  ARTE

 

A não arte

A balada que reparte

A dança e bailarina

A dança-te

Arte.

Obscura hora

Que antecede do ato

A aurora, a outra hora

Musorvalhada

No nada

Ante a catedral desmoronada

Na gótica sacada

Do pós guerra

Das horas

A mais enlutada

À parte

A bailarina banida

A balada que reparte

A despertar-te

Arte!

 

 

 

 

 

 

 

 

ilustração

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VAMOS?

JUNTAR NOSSOS CORPOS

NOSSOS COPOS, NOSSAS BOCAS

NO JARDIM?

MAIS JUNTAR NOSSOS OLHOS

NOSSOS ÓCULOS

NOSSOS PLANOS

AFINS?

VAMOS JUNTAR NOSSA CAMA

NOSSAS CHAMAS

NOSSO ÓBVIO

MAIS JUNTAR NOSSOS PLANOS

NOSSOS DANOS

NOSSO ROUCO TUDO

NOSSO SILÊNCIO MUDO

NOSSO AMOR?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O PRISIONEIRO

 

AS VEZES

PARA EU A PENSAR

SE NÃO SOU UMA PESSOA LOUCA

COM OS BRAÇOS AMARRADOS

E OS LÁBIOS AMORDAÇADOS

IMAGINANDO A SUA VOLTA

PESSOAS, PERSONAGENS,

HISTÓRIAS, EMOÇÕES

ALGUMA CENA DE TEATRO

VIDA REAL

ENTÃO QUE SEJA,

PARO EU A PENSAR:

IMENSO MAR, A VIDA

DE CONTINENTES, PLANOS, PLANETAS

PERSONAS E SUAS HISTÓRIAS

POVOS, GENTES

E SUAS TANGENTES

SUAS DEFESAS.

AMORDAÇADO

AMARRADO À MESA

EU E MINHAS INQUIETAÇÕES

BASTOU UMA EXPLOSÃO

E TANTAS PRISÕES

PRISIONEIRO EU.

 

 

AAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!

ECOA

O RESTO

DE SÍLABA

NA TOCA

NO CANAL

HORA ABERTO

ENTRE AUTOR

E OUVINTE

AAAHHHH!

SILÊNCIO CLARO

ME DESCUBRA

ALI

AMORDAÇADA

Intocada idéia

Panfleto,

Folheto,

Planilha,

Palavra,

 fio de meada

Entendimento

Incompreensão

Prisão

Silêncio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CADERNO

TAÍ O MEU CADERNO

SOBRE A CÔMODA

ME ESPERANDO

TAÍ A VÍRGULA

A PAUSA

O SOM DA MINHA VOZ

TAÍ O QUE ESCREVO

NO CADERNO QUE REPOUSA

LARGADÃO

TOMANDO DA LUMINÁRIA

UM BANHO DE LUZ

QUE FAZ JUZ

AO SEU BRONZEAMENTO

DE CLARO CADERNO

ONDE ME REVELO

EM IDÉIAS.

 

 

 

 

NA MINHA FRENTE

ENTRE, ENTRE

UMA PALAVRA

QUERENDO TE DESCREVER

CORPO NA JANELA

ELA!

UM SEIO RARO

QUE BEIJO

UMA BOCA ABERTA

QUERENDO ME DEVORAR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IRONIA

 

O Mundo sepulta seus mortos

 

 

 

 

 

 

Todos os dias,

Uns dias mais

184840593-390478546584749473937839392330!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Noutros, um pouco menos.

Há violência nas regiões em conflito,

Sul do Paquistão e pra rimar

Egito.

Ah! Meu Deus, até quando?

Morrer, tudo bem,

Não temos texto para contestar

Argumentar contra esta, das verdades,

Única.

Não temos escolha

Mas é que entre o jantar posto,

O jornal

E as notícias que nos chegam

A morte por ideologia

Assola o planeta

E se fica um pouco impotente

E ironicamente fartado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O AMOR

 

 

O AMOR

ENTÃO

ME FOI CANASTRÃO

SEM A MENOR GRAÇA

DESGRAÇA

ME DISSE ADEUS

NUMA ESQUINA QUALQUER DA VIDA

DE PRONTO

NADA ENTENDI

QUIS MORRER NA HORA

E NÃO MORRI

MAS SENTI

COMO PISOTEADO

AMASSADO

TRITURADO

O SENTIMENTO DO AMADO

DO QUERER

SER AMADO

DO CANASTRÃO AMOR

QUE ME PEGOU

E QUE A SEGUIR

SEM CERIMONIA

ME JOGOU

NUM CANTO

E DOSOLADO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Seja Como For