QUIXOTE DA QUEBRADA
De
J.Cordeirovich
Limita-se
este texto, a ser apenas um espetáculo inspirado no clássico “Dom Quixote” de autoria de Miguel de
Cervantes, aqui só fragmentos são. São
apenas trechos de um devaneio da personagem revisitada por este autor que vos
escreve agora.
Atenção:
O espaço cênico é
livre, com poucos sinais onde mesmo a cena acontece, sendo uma praça, a
taberna, um salão, uma catedral. Na verdade, as caracterizações das personagens
definirão a época mais que o cenário que não existe concretamente, apenas
adereços para compor a ideia de lugar.
Na abertura: Um palhaço dá as boas-vindas ao público e deixa
algo de mistério no ar.
Palhaço: Boa noite distinta e digníssima plateia. Deixe-me
apresentar aos senhores e senhoras esta nossa encenação teatral. Meu nome é
Agenor....o palhaço cheio de amoooorrr (faz palhaçadas com gestos). Nesta
história que vamos contar, um homem que não é palhaço como eu, mas é “mutcho
loco”!! (faz graça) é apaixonado por uma tal donzela, e faz de tudo....mas de
tudo mesmo, para tê-la em casamento. Acham até que ele, como eu, não bate bem
dos pinos. E.....bem; deixemos a
história acontecer para os olhos, ouvidos e sentimento de todos vocês. Eu saio
de cena nesta hora...mas SURPRESA! O palhaço Agenor.....cheio de amoooorrr,
voltará...me aguardem (sai).
Trilha:
Cena 1.
(Quixote, Sancho e Dançarina)
(Quixote, que dorme entre livros, de maneira desconfortável é
acordado por Sancho. Sancho, portando um pequeno espelho tenta aproximar do
rosto de seu senhor que se desvia enquanto acorda.)
Sancho: Senhor
acorda, acorda!! Estais a delirar já faz tempo.
Quixote: (despertando
empunha uma espada). Venham! Venham cães famintos, pois matarei a todos na
ponta da minha espada...Venham moinhos de vento, tempestade, cavaleiros...
Sancho:
Senhor, acorda! Acorda!...Estais a sonhar!! Aliás, tamanho pesadelo este lhe
é... Vês, até urinas-te nas vestes.
Quixote:
(desconsertado se protege do vexame) Não vês Sancho, que estão a vir em nossa
direção e nos atacarão sem piedade…Proteja-se homem, proteja-se....E antes que
nos matem, esquartejarei seus corpos e arrancarei suas cabeças....(Sancho pega um
copo com água).
Sancho
(atirando-lhe um copo com água abaixo do rosto, é melhor): Acorda, meu senhor,
não há nenhum inimigo por hora (com o espelho) ...
Quixote:
Como assim? Para que este espelho homem?....
Sancho: Para
veres o quanto estais a delirar, depois de ler tantos livros de história de
Cavalaria...Olha pra teu rosto senhor, vê o quanto sofres...
Quixote: (vendo-se
no espelho) E sabes por que sofro? Sabes por que metade da humanidade sofre
neste mundo, Sancho?
Sancho: Não
faço a menor ideia.
Quixote: Por
amor. Metade da humanidade sofre por amor. Pelo excesso, ou por falta dele.
Sancho: Eu
heim....que sentimento mais difícil, senhor?
Quixote: E
sabes por quem estou QUASE, a enlouquecer, a pirar de vez?
Sancho:
Quase? O senhor disse quase... (Irônico).
Quixote: Por
ela, ...Dulcinéia, minha princesa. (Levanta-se e anda). A mulher que me povoa
os sonhos todos. Sabes (abrindo uma garrafa de vinho e bebendo) o quanto eu a
amo? Ah... não fazes ideia desse amor, Sancho. Ninguém na terra, nem no céu faz
ideia dos sentimentos que trago neste peito, por esta donzela.
Sancho: Por
isso não tens atinado bem das ideias homem. A vida nos chama pro trabalho. Pra
labuta.
Quixote: (refletindo)
Trabalho....amar já da-me muito trabalho. E tu aceitas-te ser meu escudeiro
fiel. Não aceitastes?
Sancho: Sim,
cometi essa besteira...mas olha, só pra esta encenação, tá certo?
Quixote:
(mudando tom). Preciso fazer algo de grandioso para chamar a atenção desta
mulher...preciso talvez vencer batalhas ou nela morrer para conquista-la.
Sancho:
Precisas é acordar de vez e ir trocar suas vestes molhadas.....
Corte:
trilha.
Som de
música cigana e uma dançarina se põe a dançar na frente deles. Dança por algum
tempo. Após sua dança dirige-se a Quixote:
Dançarina:
(num tom irônico) trago notícias de sua amada ó sofrido homem por amor…Deixa-me
ler vossa mão senhor...
Quixote: E o
que dirás? Que ela me ama, que me deseja,
que me quer no seu leito agora e para sempre?
Dançarina:
Dê-me também uma taça de vinho, eu trabalho melhor alterada (ri e dança um
pouco mais). Sancho serve-lhe vinho (os dois na frente da cena e ela bebe). (Ironiza).
Esse teu vinho doce parece groselha....
Sancho:
Teatro, esqueceu?
Dançarina:
Apesar de que tem alguma coisa nessa groselha que....Já sinto minha mente
esquentar (ri). Uau!!! Bateu.....
Sancho: Vê
lá o que vais dizer ó cigana...meu senhor já anda muito perturbado...iludi-lo
seria ingratidão de tua parte.
Dançarina:
Deixa comigo amigo, eu sei fazer meu trabalho. Inda mais quando estou umas
doses de groselha. digo, vinho, a cima (ri).
Sancho: Que
seja honesto e ético o teu trabalho.
Dançarina:
Honesto? Mas quem nesta taberna é honesto, a não ser a distinta plateia...pois
neste quase drama só temos mal caráter...a começar por nós três (ri e dança
mais um pouco).
Quixote
(dando-lhe a mão) O que vês...ante tantos livros de histórias inventadas neste
mundo, o que lês em minhas mãos cigana?
Dançarina
(lendo a mão) Vejo teu passado, teu
presente e o pior homem, teu futuro.
Sancho:
Senhor, olhe no espelho, acorda! Essa dançarina......
Dançarina(a
Sancho) Deixe-o sonhar...deixo-o sonhar...., pois o que será dos homens sem ao
menos os sonhos, e nestes sonhos, o desejos? (ri).
....
Quixote: fala cigana, diga tudo...não me esconda nada,
nada...preciso saber. Preciso saber sobre ela, esta mulher que aparece em meus
sonhos e por quem tenho tão desesperado amor.
Dançarina:
Calma lá homem....mulheres....mulheres....(ri)
Quixote: Não
mulheres como se fosse qualquer uma. Mas esta mulher que povoa meus sonhos.
Sancho: Quer
dizer, pesadelo senhor...verdadeiros pesadelos é o que tenho visto.(cigana
solta-lhe a mão).
Dançarina:(agora
séria). É preciso escutar teu silencio. É preciso calar o espírito para ouvir
as vozes verdadeiras do sentido de tudo....da vida, por que não? Se é que me
entendes.....
( sai a
dançar por um lado enquanto entra por outro na cena, Dulcinéia).
Dulcinéia:
Verdade seja dita...Cavalos pra todo lado essa cidade tem. Pois quase me
atropela uma carroça de feno. Ceis tão à imaginar...(próxima a plateia). Tão a
imaginar, que lá fora, fora desse teatro, ao invés de prédios tem casas do
tempo da colônia. Feitas de madeira e palha. Que não há, que as ruas de terra
são, que automóveis e só cavalos
aceleram o movimento das carroças. E damas e princesas como eu...circulam pelas
avenidas sem shopping ainda? Pois é.
Trilha:
Cena 2:
Quixote:
(inebriado ao ver Dulcinéia): És tu....tu linda princesa?
Dulcinéia:
Claro, quem mais poderia ser?
Quixote:
Minha Princesa Dulcinéia....dá onde viestes??
Dulcinéia:
(fria) Do camarim ô piradão! E vim para lhe dizer que não sou areia pro teu
caminhãozinho não.... Acho melhor parares de dizeres coisas em meu nome...
Quixote: Que
coisas digo eu, minha flor?
Dulcinéia:
Que lhe amo, que lhe quero, que sou sua amada. O mimi já corre solta nos
bastidores. Dia desses indo à fonte do reino uma velhinha interpelou-me
perguntando, o que eu fazia que não me casava com um certo cavaleiro sonhador.
Na hora, até me animei, mas a seguir vim a saber que o cavaleiro sonhador era
tu. Tu coisa ruim.
Quixote:
Ora, ora...apenas escrevi-lhe alguns versos...
Dulcinéia: E
os espalhou por ai. Pregou pelas cercanias, nas hospedarias e paredes do
palácio. Palhaço! Tá louco? Pare com os versos, os poemas, as crônicas, as
canções. Pare! Me deixe em paz.
Quixote: Mas
por quem luto eu? Qual sentido desta vida minha, entre todos estes contos,
romances e lendas...se não tirar da melhor, uma bela e inacreditável história
de amor....(cai-lhe de joelhos).
Dulcinéia:
(que se abana esbaforida) dizes bem, uma inacreditável história de amor. Era só o que faltava..., ser a paixão de
alguém que nem conheço. Pega teu rumo homem, segue tua vida...vai. (Aponta). Te
taco uma Maria da Penha nas costas, vais ver.
Sancho:
(Apaziguador) Senhora, perdoe-me lhe dirigir a palavra, mas, meu senhor, não
está tão lúcido como imaginas....
Dulcinéia: Sim, sei que não está lúcido. Caso contrário o
meu irmão já teria lhe dado uma lição. Lucido ou não, não me interessa suas
histórias, criado Sancho.
Sancho: (à
Quixote) Não vos falei senhor, por isso o espelho. Para veres que sonhas com o impossível…Que
teus sonhos são impossíveis.
Dulcinéia:
Impossível e inacreditável esse amor. (Desdenha) Era o que me faltava veja só.
Quixote:
(com livros a mão) mas que sentido faz essa vida sem amor? Aliás sem teu amor ó
minha bela princesa.... Por quem respiro eu, por quem ando, falo, penso....
Dulcinéia:
(ironisa) Coitadinho...coitadinho. (pra plateia). Gente, como pode heim...será
que ainda há homens que amam alguém dessa maneira. Eu, heim? Que babento! Santo
Deus.
Uma Ama
adentra à cena:
Ama:
Senhora, senhora Dulcenéia, vosso pai a chama para dentro...Venha.
Dulcinéia:
Mas acabei de me afastar do seu leito....
Ama: É, mas assim que deu por sua falta, exige sua
presença.
Dulcinéia:
Pois vá e o acalme, coloque sobre ele aquele cobertor feito de palhas e de
alecrim...logo estarei voltando.
Ama: Cobertor
de palhas?
Dulcinéia:
Aquele que comprei nas Casas Bahia, em dez prestações o ano passado.
Ama: E se
ele vomitar novamente?
Dulcinéia:
Chame o gerente, o tenente, o presidente...(com enfado) ora, dê um jeito
menina!!
Ama: (ao
sair) Só vim alertá-la...com licença.
...
Dulcinéia: Tá,
tá, tá....Ouviste. Papai não anda nada bem. Entendeu? Bem, qualquer hora, um
pum e o velho vai-se....por tanto, antes que me esqueça, fique sabendo que faço
parte do grupo das Donzelas, ”Pero Indepiedente”. Temos um time de futebol, de
mulheres renderas. Fundamos um partido, essas coisas. Já ouviu falar em
empoderamento feminino? Pois é, E agora vou-me.
Quixote: Mas
antes de ir faça-me um pedido, diga um desejo seu, o mais impossível ...possível(ajoelhado
ainda, clama).
Sancho: (ao
público) Isso não está me cheirando bem, 1...
Dulcinéia
(cara de quem não entende) ....Ora....
Sancho:
Senhor! Senhor Quixote...(ainda com o espelho).
Quixote: (levanta-se)
Calma homem (bebendo mais) provarei a esta donzela o quanto a amo, realizando
seu mais impossível desejo....
Dulcinéia: (reflete)
Well,... bem, prefiro pensar melhor, a peça está só começando não é mesmo, vou
ter com papai que não está muito bem e noutra cena te digo o que desejo de mais
impossível (pisca à plateia e sai).
...
Quixote:
(animado) Viste Sancho, o quanto minha Princesa me ama, sim, como todo grande
amor ela tem dúvidas, faz-se de difícil....Elas assimsão assim, homem...Mas eu sei que lá no fundo esse amor é
imenso...É bem provável que ela queira que eu conquiste alguma cidade, que eu
vença batalhas, alguma batalha e tu...tu serás meu fiel escudeiro (já bêbado)
pega as armas...venha...vamos lutar....
Sancho: Isso
não está me cheirando nada bem2...
Luz
Cena 3:
(A trilha
deve ser gregoriana, como se estivesse num ambiente da Igreja católica). Padre
e Sobrinha caminham enquanto se falam.
Padre: O que
dizes minha filha, teu tio não está bem?
Sobrinha:
Bem? Padre ele está louco de pedra. Parece-nos que leu tantos livros de
Cavalaria que agora pensa ser um cavaleiro e que vai conquistar castelos por aí.
Padre: E o
que desejas que faça? Que lhe dê conselhos? Mude-lhe as ideias.
Sobrinha:
Conselhos? Conselhos não serão suficientes Padre…preciso que vossa
reverendíssima pense em algo mais radical. Algo que possa trazer meu tio
Quixote à realidade, afinal....
Padre:
Alguns vivem o mundo real filha...outros preferem o virtual, se é que entendes
o quero dizer.
Sobrinha:
Virtual senhor Padre? Meu tio vive a loucura
do sentimento real. Viver e morrer por amor.
Padre: Dizes
que ele leu, leu...
Sobrinha: E
muito...percebemos que ele começou a ficar deste jeito depois destas leituras,
pesquisas, estudos, conclusões. Sabes que convocou um vizinho desempregado,
para que o acompanhe nessa loucura?
Padre: Como assim…explique
melhor...
Sobrinha:
Quer que o vizinho se torne ajudante dele, que agora se diz Cavaleiro!?
Padre: É
grave!
Sobrinha:
Gravíssimo.... Então Padre, o que podemos fazer por ele?
Padre: Creio
que já sei o que podemos fazer....
Sobrinha:
Por favor Padre, o que podemos fazer para detê-lo nestas loucuras? ...
Padre:(ao
acaso) Queimar!!
Sobrinha:
(assustada) jogá-lo na fogueira?!!
Padre:
(explicando). Não minha filha, ainda não…Vamos mandar recolher seus livros e
queimar....
Sobrinhas:
Todos?
Padre: Todos
os livros que o levaram a esta situação. À esta loucura.
Sobrinha: De
ciências? De história? Romances, lendas e Contos de Cavalaria...? Tudo?
Padre: Se
queremos por um fim nesse dilema, cortemos o mal pela raiz. Todos! Eu disse
queimar todos, será uma solução.
(Cai a luz e
um candeeiro ou vela em cena).
Uma vela
acesa no centro da cena, deve queimar uma folha de um livro qualquer e ouve-se
apenas a voz do Padre que fala no escuro:
(Trilha)
Voz off:
Queimem-se livros de ciências, de história, livros de geografia, de Cavalaria…queime-se
todos os livros da biblioteca de Alexandria, da Biblioteca de Babel, papiros,
livros de constituição das democracias, livros queimem, chamas ardam…queimem...queimem
amém....(sob a trilha).
Nota 1:
Palhaço:
Olá, aqui o palhaço Agenor....também como o personagem central desta ...desta encenação.
Cheio de amooorrr(faz micagens)...Estão acompanhando bem nossa história. Um
cara loco, apaixonado. Uma princesa que num tá nem ai com ele.
Miguel de Cervantes escreveu um belo
clássico né. E o autor deste texto se aproveitou e se inspirou na história
original. Espertinho né?
E mais, por ser o Palhaço Agenor, o palhaço cheio de
amor....também estou apaixonado....É! Querem saber por quem? Antes do término
desta encenação vocês saberão.... O palhaço Agenor.....cheio de amoooorrr,
voltará...me aguardem (sai).
Cena 4: Sobrinhas e tia.
Vestidas de
época:
As meninas num improvisado salão de
beleza, umas cadeiras, uns recostos pro pescoço e umas cuidam no trato da beleza como se fossem pra uma
festa. São sobrinhas do Rei. E criada.
Celena: (que
lê um livro, enquanto mexem no seu cabelo) ...que dizem desse homem minha tia?
Esse tal Quixote.
Tia: (a
trafegar com alguma coisa nas mãos): que é um sonhador sem tamanho...
Méga: Dizem
que como todo humano normal, sonha com o juízo final....
Tia: Méga...Méga
(respira) as vezes me dá medo sabia, o seu modo de falar...
Celena: Liga
não tia, ela é meio desmiolada...
Méga:
Desmiolada é você que anda sonhando acordada também....tal qual esse louco
Quixote, como todo ser humano...eu não, eu tenho ideias próprias...Não me deixo
levar por fake News.
Celena:
(lendo) A, é?....cabilé (há,há,há)...eu heim?
Tia: . Vocês duas se acalmem, afinal o mundo é para
os sabidos minhas caras sobrinhas, e ademais o universo pretendido nem sempre é
alcançado...(serve chá).
Méga
(pensativa): Tia...tenho medo do futuro....
Celena:
(ainda lê)...uma bomba atômica nos espera a todos (pausa) Tá escrito aqui
ó....(mostra o livro).
Tia: O que
estas a dizer menina Celena...tu tens ainda a mente pequena...tens muito o que
aprender sabia?
Méga: Sobre
o amor, sobre a vida, sobre a maldade que há neste mundo....
Celena: E eu
nem me chamo Raimundo...(desdenhando).
Méga: Eu
disse Mundo! Vê tia, ela não diz coisa com coisa...ou melhor: não lê coisa com
coisa....e quer entrar em conversa alheia.
Tia: Meninas.... Eu tenho pena dos ingênuos e puros
de coração. Não, não queria que fosse assim. Mas alguma coisa em mim, depois
que vosso tio foi para a guerra, a vossa tia ficou assim.
....
Méga:(mudando
o assunto) Tia, a melhor coisa de vir a sua casa...(enquanto degusta) é provar
seus lanchinhos....E seu chá de açafrão....
Celena: E
saber mais sobre as coisas do reino.
Mega: Sobre
a vida além...sobre o amor....
Celena: O
amor, a dor, as guerras….Esse tal Quixote....
Tia: Minhas
queridas sobrinhas, o mundo além deste feudo é de muita coisa ruim. Parece que
não se aprende nuca. Como diz Celena, é
muita dor, muito sofrimento. É disso que o ser humano se alimenta ao longo dos
séculos....
Entrada da dançarina com a música “Vozes”
(youtube) Dan Grasso.
Após dança,
sem nada dizer....sai de cena a dançarina.
Tia: (Indo
mais à frente da cena...olhando o imaginário céu) Meninas venham ver.... É o
cometa não é?
Celena:
Cometas são maus presságios sabia? Tá escrito aqui.
Tia: Numa
noite assim de cometas no céu eu descobri o amor, sabiam?
Celena:
(aspira fundo) O amor...há o amor.... (trilha suave)
Tia: E vieram
as alegrias, as tristezas. Dúvidas e certezas. Choro e ranger de dentes. Disputas por poder, tramas. Crenças
falas. Desgraças. A arte mihas queridas, talvez seja um alento pra tanta coisa
ruim que há neste mundo. A arte supera todas essas mazelas, quando nos enche de
esperanças e fé num futuro melhor...Como agora esse cometa nos inspira. Depois
dele, o que virá?
Méga Mega: (muda
o assunto) Que seja, que seja tia, mas agora temos que ir...a peça precisa
continuar. Afinal o Cavaleiro da Triste figura, hoje virá nos visitar...andemos.
Saiamos de cena, para em breve voltarmos (num alarido de movimentação cênica,
saem de cena).
Cena 5:
Estaleiro, Quixote, Sancho depois o
Padre. (um balcão).
Estaleiro:
(a limpar o balcão) não entendo o que queres de mim ó sofrida figura.
Sancho:
Senhor, meu senhor quer que o eleja cavaleiro....
Estaleiro:
Mas quem tem esse poder são os Reis, os Soberanos. E não um pobre estaleiro
como eu.
Quixote: E
quem és tu, se não o Rei deste Castelo....
Estaleiro:
(a rir) Castelo! Estais a delirar homem, aqui é uma humilde estalagem e...
Quixote:
Pare, não digas nada. Sabemos eu e meu criado que és Rei e que neste Castelo
onde estamos és a autoridade máxima (curva-se).
Sancho: (ao
estaleiro) Não lhe disse senhor....Por favor finja ser vossa majestade e torne
meu amo um Cavaleiro.
Estaleiro:
Mas para isso tem que haver a participação da Santa e Amada Igreja. E o padre
anda muito ocupado com suas celebrações.
Sancho:
Celebrações.
Estaleiro: E
além do mais, cobram sempre uns trocados pra qualquer benção.
Quixote: Não
será por conta disto, dinheiro não me falta.
Estaleiro:
Eu estou só avisando aos senhores como a coisa funciona. Se tem grana rola, se
não tem: amém.
Sancho: Isso
é o de menos (apanha do bolso um celular). É da Paróquia? Posso falar com o
Padre? Ah...é o senhor Padre. Então...deixa eu falar uma coisa. Precisamos que
o senhor venha até a Esta....digo, até o Castelo na Rua dos Algozes 17,
sim....todos sabemos que era uma Estalagem e que hoje é um lindo castelo....Tá
bem, aguardamos. (assim que desliga entra o Padre).
Padre: E o
que há de tão urgente que me acordam na noite para vir a uma Esta... (é
interrompido por Sancho).
Sancho:
Castelo, padre. Castelo.
Estaleiro:
(apontando Quixote) Então senhor Padre, nosso amigo aqui deseja tornar-se
Cavaleiro e quer a nossa anuência e benção.
Sancho:
Padre, desculpe, como o senhor chegou tão rápido aqui nesta cena?
Padre: Eu
vim de uber....mas deixemos de conversa fiada e vamos logo ao que interessa.
(Dirige-se a Quixote) Queres tornar-se Cavaleiro….
Quixote: O
quanto antes possível.
Padre: mas
isto tem um custo?
Sancho:
Custo?
Estaleiro: Eu
avisei, tem um preço, o Padre quis dizer....Vocês tem alguma contribuição para
dar ao Padre e suas obras da Igreja.
Sancho:
cartão de débito e crédito ou boleto? É pra Igreja?
Padre: Nem
me lembrem da Igreja rapaz. O cupim deu nas madeiras e gastaremos os “tubos”
para trocar todos os bancos e altares....etc etc e etc. Muito gasto, muito
gasto amigos.
Quixote:
(com um pequeno saco de dinheiro) Vá lá, que seja, estas eram minhas economias para
investir nas batalhas. Nas armas e munição, mas já que é preciso. (dá ao Padre,
o dinheiro).
Sancho: A
vista..., dá desconto né Padre?
Estaleiro: Vamos iniciar a cerimônia logo, tenho muito o
que fazer.
Padre: (à
Quixote) Então te ajoelha.
(Se possível entrar outros pessoas em
cena para dar ar de cerimônia)
Estaleiro:
Eu, como autoridade máxima desta estalagem digo, Castelo....
Com esta
espada sobre os ombros assim (toca nele) lhe nomeio Cavaleiro do Meu Reinado
(em off)... que de reinado nada tem. Cachaceiro!..., digo cavaleiro és a partir
de agora.
Padre: Eu
lhe abençoo para sempre, seclorum amém.( Música gegoriana ao fundo).
Deve ser acrescida as vestes de
Quixote, alguns galardões, se possível um elmo e uma espada decente, por que a
partir de agora ele é um Cavaleiro.
(Luz e
trilha para troca de cena).
...
Palhaço:
(entra sozinho treinando espada com um cabo de vassoura) Olá, tô aqui treinando…nunca
se sabe né? Sim, sou o palhaço....(espera o público falar seu nome) O palhaço
cheio de amooorrr.... Mas não faço só graça. Faço também ameaça (ri) Rimou
né...mas é sério, caso seja necessário até o fim desta encenação, estarei com a
minha espada na mão para lutar.....Depois eu conto por QUEM, devo lutar. E se
ainda não falei o nome dela, a culpa é do autor dessa bagaça....(sai).
Cena 6
Entrada triunfal: Da milícia palaciana. Três
ou quatro soldados e um capitão entram a marchar.
Capitão: Pelotão!!!
Alto...!
Marcondes:
Sim, estamos auto determinados a parar esta marcha sem igual e sem sentido (arreando
tralhas).
Leco:
Sentido.
Capitão:
Quando digo alto, é pra parar mesmo, dar um tempo...tendeu?
(voz altiva)
Arriar armas,(imitam montar acampamento).
Leco: Arriar
as calças?
Marcondes:
Sim, as causas não resolvidas durante nossa marcha inútil por este mundo de meu
Deus.
Capitão: (mudando
assunto) então mãos à obra soldados, que mundos e fundos temos a enfrentar!
Descansemos por aqui nossas carcaças e amanhã logo cedo. (Olhando o céu): Com o
céu estrelado como este. Noite de cometa....
(Vão se
ajeitando na cena e deitando pelos cantos)
Leco:
Cometa?...
Marcondes:
Cometa. Foi sim um cometa que nos fez caminhar tantas léguas que eu não
aguentaria mais um passo...Tô quebrado.
Capitão:
Pare de reclamar solado Marcondes e prepare seu pela porco, enquanto eu vejo o
cometa. (com uma luneta).
Leco: O
cometa! O cometa!
Capitão: É o
cometa. Leco. O mesmo que um dia já passou por estes céus.
Marcondes:
Em 1705, creio que foi essa data...um cometa cruzou nossos céus e muitos até de
mataram antes da passagem dele por nós (ri) Eu rio agora…mas creio que a
natureza tem muito a nos ensinar. Não pelo temor, mas pelo seu poder
transformador de tudo.
Leco: Tem
medo da morte?
Marcondes:
Não. Da morte não Leco, tenho medo dos homens.
Leco: Os
homens são maus...
Marcondes: É
só o que se sabe sobre a humanidade....
Leco: A
maldade.
Capitão:
Calem vossas bocas e durmam.
Entrada de
Sancho e Quixote:
Quixote:
Sancho....veja estes homens acampados...Vamos convoca-los para a luta.
Sancho:
Senhor, acho melhor deixá-los em paz, afinal são soldados e parecem cansados,
ouça como roncam...
Quixote: E
como venceremos as batalhas, sem um pelotão desses. (já vai acordando-os).
Homens, levantem…as armas...a guerra nos espera!!
Capitão:
(soldados acordando) Mas...mas quem és para nos despertar do nosso descanso....
Marcondes:
Quixote! És tu? Sim, aguardávamos nesta trincheira o teu comando....
Leco:
Comando....Aguardamos o comando.
Sancho:
Comando ou sem mando...isso não me cheira nada bem 3.
Quixote:
Vamos enfrentar o inimigo na raça, sem armas...afinal não sobrou nenhuma moeda,
somente minha espada.... Agora serei eu o Cavaleiro Capitão deste pelotão:
Capitão: E
eu um ex capitão....é isso.
Sancho: O
que você acha....não está reconhecendo ele...
Ex-Capitão:
Agora estou vendo que ele é o grande Senhor Quixote, Cavaleiro de La Mancha.
Quixote: Sabia que me reconheceria, ex-capitão?
Leco: Ex-
capitão? Por que?
Ex-Capitão:
Por que nessa peça quem manda é o autor e ele me destituiu num tocar de
tecla....Agora tenho que fazer parte do exército desse....(irônico) desse
digníssimo senhor...
Quixote:
Montemos em nossos cavalos e rumemos para a batalha final....
Marcondes
(rindo) Montar em nossos cavalos? Só se a gente montar, me desculpe Senhor
Quixote, nas costas uns dos outros.
Ex-Capitão:
Nossos cavalos morreram de cede. Não temos montaria.
Leco: Não temos
nem água pra beber. E agora?
(Movimentação
em cena, pegam as tralhas e saem em marcha).
Na cena próxima estão as mulheres do
Reino, em torno de Dulcinéia:
Dulcinéia:
(ao celular) Que casar nada menina, eu pretendo curtir minha vida de solteira
por algum tempo. O que? Cuidar de criança, trocar fralda, fazer mamadeira, tá
louca? E os pretendentes então…cada um que me aparece filha…Uns bitelões que
não tomam banho faz um mês, outros metidos a sabidões, querem me convencer pelo
papo furado que todos teem. Eu não estou no desespero, não estou matando
cachorro a grito entende? Tô fora. Sim,
pode ficar sossegada Neide, quando eu escolher um pretendente eu te aviso
pessoalmente ou pelo zap.(desliga)
Amiga 1: É
isso ai Dulce, não se renda....
Amiga 2:
Dulcinéia é dura na queda, ela não se entrega fácil.
Dulcinéia: E
não mesmo...tá pensando o que? Esse papo de Cavaleiro romântico e pegador, tô
fora. Claro que quero me casar, mas não com qualquer um, entenderam....?
Amiga 3: Não tiro sua razão Du....Lembra comigo, casei
com aquele carrasco do castelo, pensei: o cara é carrasco mas é gente. Engano
minhas queridas. Na primeira briga o cara me deu um mata leão que quase me
mata. Fugi para bem longe até ele me esquecer, e aqui estou.
Dulcinéia: E
a demais, esse negócio de Cavaleiro Sonhador, já me cansou sabia...(lendo
revista)....olha aqui as figuras, os pretendentes que aparecem.
Amiga 3: Mas
afinal não está fácil encontrar bom parido não. Alias nunca esteve desde a
fundação deste condado. Alias a única que se casou bem por aqui foi Malvina,
que alias o nome já diz tudo. Ela era Má, mesmo (ri). Aqui tá difícil encontrar
um bom partido.
Amiga 2: Nem
partido, nem inteiro se é que vocês me entendem.... Tenho pensado seriamente em
entrar prum convento ai....
Amiga 1: E o
pior é que se você aceita o primeiro que aparecer, acaba se desiludindo, afinal
estes tempos são de guerra e não de paz.
Amiga 2:
Tristes tempos, né mesmo Vanda?
Amiga 1: E
não? Veja meu caso. Amei, me dei mal, matei....é matei mesmo o peste, fiquei
presa dez anos numa masmorra e orra! Agora to livre leve e solta...
Amiga 3:
Pronta pro próximo né Zete?
Amiga 2: Pro
próximo assassinato?
Amiga 3:
Mais dez anos na masmorra?
Amiga 1:
Gente, que delírio. Eu estou livre para amar...
Dulcinéia:
Ótimo. Como você está livre para amar, que tal escolher um desses heróis aqui
na revista? Olha isso....que tipão!
Amiga 1:
Esse Cavaleiro do Zodíaco não sei não,....
Amiga 2: E
este Cavaleiro Amostra Grátis....
Dulcinéia:
Gente, eu tô brincando só pra distrair, por que hoje, quer dizer, agora...é a
hora da cena final....vamos lá (luz e trilha)
Luz.
.....
(três
pancadas na madeira e a voz) Que Entre os convidados.....
Todos deverão
entrar em cena e se posicionar em algum lugar demarcado para o final da peça:
Sancho e
Quixote (entrando).
Sancho:
Senhor....creio que é nesta praça que tudo deve acontecer.
Quixote:
Homens, posicionem-se em pontos estratégicos para me dar cobertura. Já que
tenho que duelar por Dulcinéia, o farei nem que seja meu último ato...
Sancho:
Última cena o senhor quer dizer.
Palhaço: Boa
noite senhoras e senhores....fui colocado nesta peça para uma disputa sem
tamanho. O coração de Diolinda....
Ama:
Dulcinéia.... (as amigas a repreendem fazendo um xi).
Palhaço:
Dulcelinda, a mais bela princesa deste povoado. Prepare-se Quixote, por que eu
posso dar meu bote (cai)....
Dulcinéia:
Meninas, é cada uma que nos aparece....
Amiga 1: E
não....
Amiga
2: Que tal bater em retirada...
Dulcinéia:
Calma....tudo pelo bem do teatro, eu quero ficar para ver no que vai dar.
Estaleiro:
Promoção na minha Estalagem, duas taças de vinho e você bebe a terceira de
graça....Gente tá difícil vender heim? Povo vem aqui fica só no papo. Peça ou
não, a galera tem que consumir alguma coisa uai.
Palhaço: (ao
estaleiro) Te prometo estaleiro, vencendo essa luta eu comerei todos os
hamburgeres que fritar....
Estaleiro:
Agora sim...e não deixe de experimentar o vinho da casa.(animado).
Quixote:
Escolha as armas bufão....jogo de cartas, pif-paf, xadrez ou dois ou um....
...
Prima e
Padre entram na cena:
Prima: E por
que esse duelo homens?
Padre: Por
quem derramam sangue?
Quixote:
Pela mais bela flor deste jardim...
Dulcinéia:
Ui!
Palhaço:
Pela Lua que reflete na noite escura.
Dulcineia:
Ai (as amigas lhe acolhem).
Alguém:
Senhoras e senhores. O coração tem razão que a própria razão desconhece. Estes
dois senhores pretendem disputar está que ali está. Por declararem em todas as
mídias seu amor.....por ela.
(lendo um
livro) Segundo consta nos autos. Quixote, personagem de Miguel de Cervantes,
emprestado aqui como representante de uma maioria sonhadora e apaixonada pelo
impossível. Cabe dizer que o mesmo não tem nenhuma particularidade positiva a
não ser que sua riqueza é de origem lícita (.....(quase em off) foi paga pra
isso dizer).
O Palhaço
ator desta Comapnhia, não passa de um enganador pois nem palhaço o é. Se faz dê
para atacar jovens indefezas no camarim que eyu vi (também pagaram por isso).
Bem...que vença o melhor. Padre! Prossgiga.
....
Padre: Em
nome de pater, de mater e de filho....abençoo-o esta contenda e que vença o
melhor.
Palhaço: ( a
espada em punho) Sou contra o que dizeram a mesmu respeito, sacanagem heim
diretor? Vamos sigamos a peça...(explicando pra si mesmo) eu agora com a espada
ameaço o tal Quixote. (....) Olha bem, isto é uma espada....ela fura, esse furo
sangra, esse sangue escorrre....tendeu....
Sancho:
(para Quixote) Senhor....esse palhaço não está de brincadeira....
Ama: Ele
quer ver o circo pegar fogo. Com toda certeza.
Estaleiro:
Ele quer dar um cheque-mate no jogo.
Quixote:
(para o palhaço que se mexe todo fazendo o povo rir) Pois venha de lá com sua
espada....que eu vou (apresenta uma arma de fogo) daqui com meu bacamarte.
Padre: Epa!
Assim também não. Que vocês se matem tudo bem, mas tem que ser uma luta
honesta.
Dançarina:
Honesta? Mas quem nesta taberna é honesto, a não ser a distinta plateia...
Ex-Capitão:
E o meu pelotão, viu dona dançarina.....todos os meus soldados são honestos para
com a pátria armada, digo amada.
Quixote:
Ex-Capitão: melhor o você ficar de boca fechada....Empreste sua arma ao
palhaço....
Ex-Capitão:
Minha arma não tem munição....
Sancho: É só
pra encerrar a peça ô....
Ex-Capitão:
Ok....tudo bem....tá aqui minha arma com munição. Aliás bala de prata se é que
vocês me entendem....
Palhaço:
Muito bonito hem primo, eu que lhe confiava tanto....
Ex-Capitão:
Nada posso fazer, o autor deste evento trama os mais duros golpes....
....Improvisar
o fim do texto como se estivessem sem falas (explico)
...
Dulcinéia:
Senhores, parem esta contenda. Vamos fazer uma coisa, já que o autor nos largou
aqui....E eu sou a bola da vez. Do auto do meu poder de personagem digo aqui
nossas últimas palavras: GAME OVER....
Todos: Game
Over!!! (som de bit e uma música animada para os atores darem as mãos e
agradecer ao público).
J.Cordeirovich (autor)
Junho19.
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