terça-feira, 27 de abril de 2021

QUIXOTE DA QUEBRADA De J.Cordeirovich

 

 QUIXOTE DA QUEBRADA

De J.Cordeirovich

 

 

Limita-se este texto, a ser apenas um espetáculo inspirado no clássico  “Dom Quixote” de autoria de Miguel de Cervantes,  aqui só fragmentos são. São apenas trechos de um devaneio da personagem revisitada por este autor que vos escreve agora.

Atenção:

O espaço cênico é livre, com poucos sinais onde mesmo a cena acontece, sendo uma praça, a taberna, um salão, uma catedral. Na verdade, as caracterizações das personagens definirão a época mais que o cenário que não existe concretamente, apenas adereços para compor a ideia de lugar.

Na abertura: Um palhaço dá as boas-vindas ao público e deixa algo de mistério no ar.

Palhaço: Boa noite distinta e digníssima plateia. Deixe-me apresentar aos senhores e senhoras esta nossa encenação teatral. Meu nome é Agenor....o palhaço cheio de amoooorrr (faz palhaçadas com gestos). Nesta história que vamos contar, um homem que não é palhaço como eu, mas é “mutcho loco”!! (faz graça) é apaixonado por uma tal donzela, e faz de tudo....mas de tudo mesmo, para tê-la em casamento. Acham até que ele, como eu, não bate bem dos pinos. E.....bem;  deixemos a história acontecer para os olhos, ouvidos e sentimento de todos vocês. Eu saio de cena nesta hora...mas SURPRESA! O palhaço Agenor.....cheio de amoooorrr, voltará...me aguardem (sai).

Trilha:

Cena 1. (Quixote, Sancho e Dançarina)

(Quixote, que dorme entre livros, de maneira desconfortável é acordado por Sancho. Sancho, portando um pequeno espelho tenta aproximar do rosto de seu senhor que se desvia enquanto acorda.)

Sancho: Senhor acorda, acorda!! Estais a delirar já faz tempo.

Quixote: (despertando empunha uma espada). Venham! Venham cães famintos, pois matarei a todos na ponta da minha espada...Venham moinhos de vento, tempestade, cavaleiros...

Sancho: Senhor, acorda! Acorda!...Estais a sonhar!! Aliás, tamanho pesadelo este lhe é... Vês, até urinas-te nas vestes.

Quixote: (desconsertado se protege do vexame) Não vês Sancho, que estão a vir em nossa direção e nos atacarão sem piedade…Proteja-se homem, proteja-se....E antes que nos matem, esquartejarei seus corpos e arrancarei suas cabeças....(Sancho pega um copo com água).

Sancho (atirando-lhe um copo com água abaixo do rosto, é melhor): Acorda, meu senhor, não há nenhum inimigo por hora (com o espelho) ...

Quixote: Como assim? Para que este espelho homem?....

Sancho: Para veres o quanto estais a delirar, depois de ler tantos livros de história de Cavalaria...Olha pra teu rosto senhor, vê o quanto sofres...

Quixote: (vendo-se no espelho) E sabes por que sofro? Sabes por que metade da humanidade sofre neste mundo, Sancho?

Sancho: Não faço a menor ideia.

Quixote: Por amor. Metade da humanidade sofre por amor. Pelo excesso, ou por falta dele.

Sancho: Eu heim....que sentimento mais difícil, senhor?

Quixote: E sabes por quem estou QUASE, a enlouquecer, a pirar de vez?

Sancho: Quase? O senhor disse quase... (Irônico).

Quixote: Por ela, ...Dulcinéia, minha princesa. (Levanta-se e anda). A mulher que me povoa os sonhos todos. Sabes (abrindo uma garrafa de vinho e bebendo) o quanto eu a amo? Ah... não fazes ideia desse amor, Sancho. Ninguém na terra, nem no céu faz ideia dos sentimentos que trago neste peito, por esta donzela.

Sancho: Por isso não tens atinado bem das ideias homem. A vida nos chama pro trabalho. Pra labuta.

Quixote: (refletindo) Trabalho....amar já da-me muito trabalho. E tu aceitas-te ser meu escudeiro fiel. Não aceitastes?

Sancho: Sim, cometi essa besteira...mas olha, só pra esta encenação, tá certo?

Quixote: (mudando tom). Preciso fazer algo de grandioso para chamar a atenção desta mulher...preciso talvez vencer batalhas ou nela morrer para conquista-la.

Sancho: Precisas é acordar de vez e ir trocar suas vestes molhadas.....

Corte: trilha.

Som de música cigana e uma dançarina se põe a dançar na frente deles. Dança por algum tempo. Após sua dança dirige-se a Quixote:

Dançarina: (num tom irônico) trago notícias de sua amada ó sofrido homem por amor…Deixa-me ler vossa mão senhor...

Quixote: E o que dirás?  Que ela me ama, que me deseja, que me quer no seu leito agora e para sempre?

Dançarina: Dê-me também uma taça de vinho, eu trabalho melhor alterada (ri e dança um pouco mais). Sancho serve-lhe vinho (os dois na frente da cena e ela bebe). (Ironiza). Esse teu vinho doce parece groselha....

Sancho: Teatro, esqueceu?

Dançarina: Apesar de que tem alguma coisa nessa groselha que....Já sinto minha mente esquentar (ri). Uau!!! Bateu.....

Sancho: Vê lá o que vais dizer ó cigana...meu senhor já anda muito perturbado...iludi-lo seria ingratidão de tua parte.

Dançarina: Deixa comigo amigo, eu sei fazer meu trabalho. Inda mais quando estou umas doses de groselha. digo, vinho, a cima (ri).

Sancho: Que seja honesto e ético o teu trabalho.

Dançarina: Honesto? Mas quem nesta taberna é honesto, a não ser a distinta plateia...pois neste quase drama só temos mal caráter...a começar por nós três (ri e dança mais um pouco).

Quixote (dando-lhe a mão) O que vês...ante tantos livros de histórias inventadas neste mundo, o que lês em minhas mãos cigana?

Dançarina (lendo a mão)  Vejo teu passado, teu presente e o pior homem, teu futuro.

Sancho: Senhor, olhe no espelho, acorda! Essa dançarina......

Dançarina(a Sancho) Deixe-o sonhar...deixo-o sonhar...., pois o que será dos homens sem ao menos os sonhos, e nestes sonhos, o desejos? (ri).

....

Quixote:  fala cigana, diga tudo...não me esconda nada, nada...preciso saber. Preciso saber sobre ela, esta mulher que aparece em meus sonhos e por quem tenho tão desesperado amor.

Dançarina: Calma lá homem....mulheres....mulheres....(ri)

Quixote: Não mulheres como se fosse qualquer uma. Mas esta mulher que povoa meus sonhos.

Sancho: Quer dizer, pesadelo senhor...verdadeiros pesadelos é o que tenho visto.(cigana solta-lhe a mão).

Dançarina:(agora séria). É preciso escutar teu silencio. É preciso calar o espírito para ouvir as vozes verdadeiras do sentido de tudo....da vida, por que não? Se é que me entendes.....

( sai a dançar por um lado enquanto entra por outro na cena, Dulcinéia).

Dulcinéia: Verdade seja dita...Cavalos pra todo lado essa cidade tem. Pois quase me atropela uma carroça de feno. Ceis tão à imaginar...(próxima a plateia). Tão a imaginar, que lá fora, fora desse teatro, ao invés de prédios tem casas do tempo da colônia. Feitas de madeira e palha. Que não há, que as ruas de terra são, que  automóveis e só cavalos aceleram o movimento das carroças. E damas e princesas como eu...circulam pelas avenidas sem shopping ainda? Pois é.

Trilha:

Cena 2:

Quixote: (inebriado ao ver Dulcinéia): És tu....tu linda princesa?

Dulcinéia: Claro, quem mais poderia ser?

Quixote: Minha Princesa Dulcinéia....dá onde viestes??

Dulcinéia: (fria) Do camarim ô piradão! E vim para lhe dizer que não sou areia pro teu caminhãozinho não.... Acho melhor parares de dizeres coisas em meu nome...

Quixote: Que coisas digo eu, minha flor?

Dulcinéia: Que lhe amo, que lhe quero, que sou sua amada. O mimi já corre solta nos bastidores. Dia desses indo à fonte do reino uma velhinha interpelou-me perguntando, o que eu fazia que não me casava com um certo cavaleiro sonhador. Na hora, até me animei, mas a seguir vim a saber que o cavaleiro sonhador era tu. Tu coisa ruim.

Quixote: Ora, ora...apenas escrevi-lhe alguns versos...

Dulcinéia: E os espalhou por ai. Pregou pelas cercanias, nas hospedarias e paredes do palácio. Palhaço! Tá louco? Pare com os versos, os poemas, as crônicas, as canções. Pare! Me deixe em paz.

Quixote: Mas por quem luto eu? Qual sentido desta vida minha, entre todos estes contos, romances e lendas...se não tirar da melhor, uma bela e inacreditável história de amor....(cai-lhe de joelhos).

Dulcinéia: (que se abana esbaforida) dizes bem, uma inacreditável história de amor.  Era só o que faltava..., ser a paixão de alguém que nem conheço. Pega teu rumo homem, segue tua vida...vai. (Aponta). Te taco uma Maria da Penha nas costas, vais ver.

Sancho: (Apaziguador) Senhora, perdoe-me lhe dirigir a palavra, mas, meu senhor, não está tão lúcido como imaginas....

Dulcinéia:  Sim, sei que não está lúcido. Caso contrário o meu irmão já teria lhe dado uma lição. Lucido ou não, não me interessa suas histórias, criado Sancho.

Sancho: (à Quixote) Não vos falei senhor, por isso o espelho. Para veres que sonhas com o impossível…Que teus sonhos são impossíveis.

Dulcinéia: Impossível e inacreditável esse amor. (Desdenha) Era o que me faltava veja só.

Quixote: (com livros a mão) mas que sentido faz essa vida sem amor? Aliás sem teu amor ó minha bela princesa.... Por quem respiro eu, por quem ando, falo, penso....

Dulcinéia: (ironisa) Coitadinho...coitadinho. (pra plateia). Gente, como pode heim...será que ainda há homens que amam alguém dessa maneira. Eu, heim? Que babento! Santo Deus.

Uma Ama adentra à cena:

Ama: Senhora, senhora Dulcenéia, vosso pai a chama para dentro...Venha.

Dulcinéia: Mas acabei de me afastar do seu leito....

Ama: É,  mas assim que deu por sua falta, exige sua presença.

Dulcinéia: Pois vá e o acalme, coloque sobre ele aquele cobertor feito de palhas e de alecrim...logo estarei voltando.

Ama: Cobertor de palhas?

Dulcinéia: Aquele que comprei nas Casas Bahia, em dez prestações o ano passado.

Ama: E se ele vomitar novamente?

Dulcinéia: Chame o gerente, o tenente, o presidente...(com enfado) ora, dê um jeito menina!!

Ama: (ao sair)  Só vim alertá-la...com licença.

...

Dulcinéia: Tá, tá, tá....Ouviste. Papai não anda nada bem. Entendeu? Bem, qualquer hora, um pum e o velho vai-se....por tanto, antes que me esqueça, fique sabendo que faço parte do grupo das Donzelas, ”Pero Indepiedente”. Temos um time de futebol, de mulheres renderas. Fundamos um partido, essas coisas. Já ouviu falar em empoderamento feminino? Pois é, E agora vou-me.

Quixote: Mas antes de ir faça-me um pedido, diga um desejo seu, o mais impossível ...possível(ajoelhado ainda, clama).

Sancho: (ao público) Isso não está me cheirando bem, 1...

Dulcinéia (cara de quem não entende) ....Ora....

Sancho: Senhor! Senhor Quixote...(ainda com o espelho).

Quixote: (levanta-se) Calma homem (bebendo mais) provarei a esta donzela o quanto a amo, realizando seu mais impossível desejo....

Dulcinéia: (reflete) Well,... bem, prefiro pensar melhor, a peça está só começando não é mesmo, vou ter com papai que não está muito bem e noutra cena te digo o que desejo de mais impossível (pisca à plateia e sai).

...

Quixote: (animado) Viste Sancho, o quanto minha Princesa me ama, sim, como todo grande amor ela tem dúvidas, faz-se de difícil....Elas assimsão assim,  homem...Mas eu sei que lá no fundo esse amor é imenso...É bem provável que ela queira que eu conquiste alguma cidade, que eu vença batalhas, alguma batalha e tu...tu serás meu fiel escudeiro (já bêbado) pega as armas...venha...vamos  lutar....

Sancho: Isso não está me cheirando nada bem2...

 

Luz

 

Cena 3:

(A trilha deve ser gregoriana, como se estivesse num ambiente da Igreja católica). Padre e Sobrinha caminham enquanto se falam.

Padre: O que dizes minha filha, teu tio não está bem?

Sobrinha: Bem? Padre ele está louco de pedra. Parece-nos que leu tantos livros de Cavalaria que agora pensa ser um cavaleiro e que vai conquistar castelos por aí.

Padre: E o que desejas que faça? Que lhe dê conselhos? Mude-lhe as ideias.

Sobrinha: Conselhos? Conselhos não serão suficientes Padre…preciso que vossa reverendíssima pense em algo mais radical. Algo que possa trazer meu tio Quixote à realidade, afinal....

Padre: Alguns vivem o mundo real filha...outros preferem o virtual, se é que entendes o quero dizer.

Sobrinha: Virtual senhor Padre? Meu tio vive a loucura  do sentimento real. Viver e morrer por amor.

Padre: Dizes que ele leu, leu...

Sobrinha: E muito...percebemos que ele começou a ficar deste jeito depois destas leituras, pesquisas, estudos, conclusões. Sabes que convocou um vizinho desempregado, para que o acompanhe nessa loucura?

Padre: Como assim…explique melhor...

Sobrinha: Quer que o vizinho se torne ajudante dele, que agora se diz Cavaleiro!?

Padre: É grave!

Sobrinha: Gravíssimo.... Então Padre, o que podemos fazer por ele?

Padre: Creio que já sei o que podemos fazer....

Sobrinha: Por favor Padre, o que podemos fazer para detê-lo nestas loucuras? ...

Padre:(ao acaso) Queimar!!

Sobrinha: (assustada) jogá-lo na fogueira?!!

Padre: (explicando). Não minha filha, ainda não…Vamos mandar recolher seus livros e queimar....

Sobrinhas: Todos?

Padre: Todos os livros que o levaram a esta situação. À esta loucura.

Sobrinha: De ciências? De história? Romances, lendas e Contos de Cavalaria...? Tudo?

Padre: Se queremos por um fim nesse dilema, cortemos o mal pela raiz. Todos! Eu disse queimar todos, será uma solução.

(Cai a luz e um candeeiro ou vela em cena).

Uma vela acesa no centro da cena, deve queimar uma folha de um livro qualquer e ouve-se apenas a voz do Padre que fala no escuro:

(Trilha)

Voz off: Queimem-se livros de ciências, de história, livros de geografia, de Cavalaria…queime-se todos os livros da biblioteca de Alexandria, da Biblioteca de Babel, papiros, livros de constituição das democracias, livros queimem, chamas ardam…queimem...queimem amém....(sob a trilha).

 

Nota 1:

Palhaço: Olá, aqui o palhaço Agenor....também como o  personagem central desta ...desta encenação. Cheio de amooorrr(faz micagens)...Estão acompanhando bem nossa história. Um cara loco, apaixonado. Uma princesa que num tá nem ai com ele.

Miguel de Cervantes escreveu um belo clássico né. E o autor deste texto se aproveitou e se inspirou na história original. Espertinho né?

E mais, por ser o Palhaço Agenor, o palhaço cheio de amor....também estou apaixonado....É! Querem saber por quem? Antes do término desta encenação vocês saberão.... O palhaço Agenor.....cheio de amoooorrr, voltará...me aguardem (sai).

 

 Cena 4: Sobrinhas e tia.

Vestidas de época:

As meninas num improvisado salão de beleza, umas cadeiras, uns recostos pro pescoço e umas cuidam   no trato da beleza como se fossem pra uma festa. São sobrinhas do Rei. E criada.

Celena: (que lê um livro, enquanto mexem no seu cabelo) ...que dizem desse homem minha tia? Esse tal Quixote.

Tia: (a trafegar com alguma coisa nas mãos): que é um sonhador sem tamanho...

Méga: Dizem que como todo humano normal, sonha com o juízo final....

Tia: Méga...Méga (respira) as vezes me dá medo sabia, o seu modo de falar...

Celena: Liga não tia, ela é meio desmiolada...

Méga: Desmiolada é você que anda sonhando acordada também....tal qual esse louco Quixote, como todo ser humano...eu não, eu tenho ideias próprias...Não me deixo levar por fake News.

Celena: (lendo) A, é?....cabilé (há,há,há)...eu heim?

Tia:  . Vocês duas se acalmem, afinal o mundo é para os sabidos minhas caras sobrinhas, e ademais o universo pretendido nem sempre é alcançado...(serve chá).

Méga (pensativa): Tia...tenho medo do futuro....

Celena: (ainda lê)...uma bomba atômica nos espera a todos (pausa) Tá escrito aqui ó....(mostra o livro).

Tia: O que estas a dizer menina Celena...tu tens ainda a mente pequena...tens muito o que aprender sabia?

Méga: Sobre o amor, sobre a vida, sobre a maldade que há neste mundo....

Celena: E eu nem me chamo Raimundo...(desdenhando).

Méga: Eu disse Mundo! Vê tia, ela não diz coisa com coisa...ou melhor: não lê coisa com coisa....e quer entrar em conversa alheia.

Tia:  Meninas.... Eu tenho pena dos ingênuos e puros de coração. Não, não queria que fosse assim. Mas alguma coisa em mim, depois que vosso tio foi para a guerra, a vossa tia ficou assim.

....

Méga:(mudando o assunto) Tia, a melhor coisa de vir a sua casa...(enquanto degusta) é provar seus lanchinhos....E seu chá de açafrão....

Celena: E saber mais sobre as coisas do reino.

Mega: Sobre a vida além...sobre o amor....

Celena: O amor, a dor, as guerras….Esse tal Quixote....

Tia: Minhas queridas sobrinhas, o mundo além deste feudo é de muita coisa ruim. Parece que não se aprende nuca.  Como diz Celena, é muita dor, muito sofrimento. É disso que o ser humano se alimenta ao longo dos séculos....

Entrada da dançarina com a música “Vozes” (youtube) Dan Grasso.

Após dança, sem nada dizer....sai de cena a dançarina.

Tia: (Indo mais à frente da cena...olhando o imaginário céu) Meninas venham ver.... É o cometa não é?

Celena: Cometas são maus presságios sabia? Tá escrito aqui.

Tia: Numa noite assim de cometas no céu eu descobri o amor, sabiam?

Celena: (aspira fundo) O amor...há o amor.... (trilha suave)

Tia: E vieram as alegrias, as tristezas. Dúvidas e certezas. Choro e ranger  de dentes. Disputas por poder, tramas. Crenças falas. Desgraças. A arte mihas queridas, talvez seja um alento pra tanta coisa ruim que há neste mundo. A arte supera todas essas mazelas, quando nos enche de esperanças e fé num futuro melhor...Como agora esse cometa nos inspira. Depois dele, o que virá?

Méga Mega: (muda o assunto) Que seja, que seja tia, mas agora temos que ir...a peça precisa continuar. Afinal o Cavaleiro da Triste figura, hoje virá nos visitar...andemos. Saiamos de cena, para em breve voltarmos (num alarido de movimentação cênica, saem de cena).

 

Cena 5:

Estaleiro, Quixote, Sancho depois o Padre. (um balcão).

 

Estaleiro: (a limpar o balcão) não entendo o que queres de mim ó sofrida figura.

Sancho: Senhor, meu senhor quer que o eleja cavaleiro....

Estaleiro: Mas quem tem esse poder são os Reis, os Soberanos. E não um pobre estaleiro como eu.

Quixote: E quem és tu, se não o Rei deste Castelo....

Estaleiro: (a rir) Castelo! Estais a delirar homem, aqui é uma humilde estalagem e...

Quixote: Pare, não digas nada. Sabemos eu e meu criado que és Rei e que neste Castelo onde estamos és a autoridade máxima (curva-se).

Sancho: (ao estaleiro) Não lhe disse senhor....Por favor finja ser vossa majestade e torne meu amo um Cavaleiro.

Estaleiro: Mas para isso tem que haver a participação da Santa e Amada Igreja. E o padre anda muito ocupado com suas celebrações.

Sancho: Celebrações.

Estaleiro: E além do mais, cobram sempre uns trocados pra qualquer benção.

Quixote: Não será por conta disto, dinheiro não me falta.

Estaleiro: Eu estou só avisando aos senhores como a coisa funciona. Se tem grana rola, se não tem: amém.

Sancho: Isso é o de menos (apanha do bolso um celular). É da Paróquia? Posso falar com o Padre? Ah...é o senhor Padre. Então...deixa eu falar uma coisa. Precisamos que o senhor venha até a Esta....digo, até o Castelo na Rua dos Algozes 17, sim....todos sabemos que era uma Estalagem e que hoje é um lindo castelo....Tá bem, aguardamos. (assim que desliga entra o Padre).

Padre: E o que há de tão urgente que me acordam na noite para vir a uma Esta... (é interrompido por Sancho).

Sancho: Castelo, padre. Castelo.

Estaleiro: (apontando Quixote) Então senhor Padre, nosso amigo aqui deseja tornar-se Cavaleiro e quer a nossa anuência e benção.

Sancho: Padre, desculpe, como o senhor chegou tão rápido aqui nesta cena?

Padre: Eu vim de uber....mas deixemos de conversa fiada e vamos logo ao que interessa. (Dirige-se a Quixote) Queres tornar-se Cavaleiro….

Quixote: O quanto antes possível.

Padre: mas isto tem um custo?

Sancho: Custo?

Estaleiro: Eu avisei, tem um preço, o Padre quis dizer....Vocês tem alguma contribuição para dar ao Padre e suas obras da Igreja.

Sancho: cartão de débito e crédito ou boleto? É pra Igreja?

Padre: Nem me lembrem da Igreja rapaz. O cupim deu nas madeiras e gastaremos os “tubos” para trocar todos os bancos e altares....etc etc e etc. Muito gasto, muito gasto amigos.

Quixote: (com um pequeno saco de dinheiro) Vá lá,  que seja, estas eram minhas economias para investir nas batalhas. Nas armas e munição, mas já que é preciso. (dá ao Padre, o dinheiro).

Sancho: A vista..., dá desconto né Padre?

Estaleiro:  Vamos iniciar a cerimônia logo, tenho muito o que fazer.

Padre: (à Quixote) Então te ajoelha.

(Se possível entrar outros pessoas em cena para dar ar de cerimônia)

Estaleiro: Eu, como autoridade máxima desta estalagem digo, Castelo....

Com esta espada sobre os ombros assim (toca nele) lhe nomeio Cavaleiro do Meu Reinado (em off)... que de reinado nada tem. Cachaceiro!..., digo cavaleiro és a partir de agora.

Padre: Eu lhe abençoo para sempre, seclorum amém.( Música gegoriana ao fundo).

Deve ser acrescida as vestes de Quixote, alguns galardões, se possível um elmo e uma espada decente, por que a partir de agora ele é um Cavaleiro.

(Luz e trilha para troca de cena).

...

Palhaço: (entra sozinho treinando espada com um cabo de vassoura) Olá, tô aqui treinando…nunca se sabe né? Sim, sou o palhaço....(espera o público falar seu nome) O palhaço cheio de amooorrr.... Mas não faço só graça. Faço também ameaça (ri) Rimou né...mas é sério, caso seja necessário até o fim desta encenação, estarei com a minha espada na mão para lutar.....Depois eu conto por QUEM, devo lutar. E se ainda não falei o nome dela, a culpa é do autor dessa bagaça....(sai).

 

Cena 6

 Entrada triunfal: Da milícia palaciana. Três ou quatro soldados e um capitão entram a marchar.

Capitão: Pelotão!!! Alto...!

Marcondes: Sim, estamos auto determinados a parar esta marcha sem igual e sem sentido (arreando tralhas).

Leco: Sentido.

Capitão: Quando digo alto, é pra parar mesmo, dar um tempo...tendeu?

(voz altiva) Arriar armas,(imitam montar acampamento).

Leco: Arriar as calças?

Marcondes: Sim, as causas não resolvidas durante nossa marcha inútil por este mundo de meu Deus.

Capitão: (mudando assunto) então mãos à obra soldados, que mundos e fundos temos a enfrentar! Descansemos por aqui nossas carcaças e amanhã logo cedo. (Olhando o céu): Com o céu estrelado como este. Noite de cometa....

(Vão se ajeitando na cena e deitando pelos cantos)

Leco: Cometa?...

Marcondes: Cometa. Foi sim um cometa que nos fez caminhar tantas léguas que eu não aguentaria mais um passo...Tô quebrado.

Capitão: Pare de reclamar solado Marcondes e prepare seu pela porco, enquanto eu vejo o cometa. (com uma luneta).

Leco: O cometa! O cometa!

Capitão: É o cometa. Leco. O mesmo que um dia já passou por estes céus.

Marcondes: Em 1705, creio que foi essa data...um cometa cruzou nossos céus e muitos até de mataram antes da passagem dele por nós (ri) Eu rio agora…mas creio que a natureza tem muito a nos ensinar. Não pelo temor, mas pelo seu poder transformador de tudo.

Leco: Tem medo da morte?

Marcondes: Não. Da morte não Leco, tenho medo dos homens.

Leco: Os homens são maus...

Marcondes: É só o que se sabe sobre a humanidade....

Leco: A maldade.

Capitão: Calem vossas bocas e durmam.

Entrada de Sancho e Quixote:

Quixote: Sancho....veja estes homens acampados...Vamos convoca-los para a luta.

Sancho: Senhor, acho melhor deixá-los em paz, afinal são soldados e parecem cansados, ouça como roncam...

Quixote: E como venceremos as batalhas, sem um pelotão desses. (já vai acordando-os). Homens, levantem…as armas...a guerra nos espera!!

Capitão: (soldados acordando) Mas...mas quem és para nos despertar do nosso descanso....

Marcondes: Quixote! És tu? Sim, aguardávamos nesta trincheira o teu comando....

Leco: Comando....Aguardamos o comando.

Sancho: Comando ou sem mando...isso não me cheira nada bem 3.

Quixote: Vamos enfrentar o inimigo na raça, sem armas...afinal não sobrou nenhuma moeda, somente minha espada.... Agora serei eu o Cavaleiro Capitão deste pelotão:

Capitão: E eu um ex capitão....é isso.

Sancho: O que você acha....não está reconhecendo ele...

Ex-Capitão: Agora estou vendo que ele é o grande Senhor Quixote, Cavaleiro de La Mancha.

Quixote:  Sabia que me reconheceria, ex-capitão?

Leco: Ex- capitão? Por que?

Ex-Capitão: Por que nessa peça quem manda é o autor e ele me destituiu num tocar de tecla....Agora tenho que fazer parte do exército desse....(irônico) desse digníssimo senhor...

Quixote: Montemos em nossos cavalos e rumemos para a batalha final....

Marcondes (rindo) Montar em nossos cavalos? Só se a gente montar, me desculpe Senhor Quixote, nas costas uns dos outros.

Ex-Capitão: Nossos cavalos morreram de cede. Não temos montaria.

Leco: Não temos nem água pra beber. E agora?

(Movimentação em cena, pegam as tralhas e saem em marcha).

Na cena próxima estão as mulheres do Reino, em torno de Dulcinéia:

 

Dulcinéia: (ao celular) Que casar nada menina, eu pretendo curtir minha vida de solteira por algum tempo. O que? Cuidar de criança, trocar fralda, fazer mamadeira, tá louca? E os pretendentes então…cada um que me aparece filha…Uns bitelões que não tomam banho faz um mês, outros metidos a sabidões, querem me convencer pelo papo furado que todos teem. Eu não estou no desespero, não estou matando cachorro a grito entende?  Tô fora. Sim, pode ficar sossegada Neide, quando eu escolher um pretendente eu te aviso pessoalmente ou pelo zap.(desliga)

Amiga 1: É isso ai Dulce, não se renda....

Amiga 2: Dulcinéia é dura na queda, ela não se entrega fácil.

Dulcinéia: E não mesmo...tá pensando o que? Esse papo de Cavaleiro romântico e pegador, tô fora. Claro que quero me casar, mas não com qualquer um, entenderam....?

Amiga 3:  Não tiro sua razão Du....Lembra comigo, casei com aquele carrasco do castelo, pensei: o cara é carrasco mas é gente. Engano minhas queridas. Na primeira briga o cara me deu um mata leão que quase me mata. Fugi para bem longe até ele me esquecer, e aqui estou.

Dulcinéia: E a demais, esse negócio de Cavaleiro Sonhador, já me cansou sabia...(lendo revista)....olha aqui as figuras, os pretendentes que aparecem.

Amiga 3: Mas afinal não está fácil encontrar bom parido não. Alias nunca esteve desde a fundação deste condado. Alias a única que se casou bem por aqui foi Malvina, que alias o nome já diz tudo. Ela era Má, mesmo (ri). Aqui tá difícil encontrar um bom partido.

Amiga 2: Nem partido, nem inteiro se é que vocês me entendem.... Tenho pensado seriamente em entrar prum convento ai....

Amiga 1: E o pior é que se você aceita o primeiro que aparecer, acaba se desiludindo, afinal estes tempos são de guerra e não de paz.

Amiga 2: Tristes tempos, né mesmo Vanda?

Amiga 1: E não? Veja meu caso. Amei, me dei mal, matei....é matei mesmo o peste, fiquei presa dez anos numa masmorra e orra! Agora to livre leve e solta...

Amiga 3: Pronta pro próximo né Zete?

Amiga 2: Pro próximo assassinato?

Amiga 3: Mais dez anos na masmorra?

Amiga 1: Gente, que delírio. Eu estou livre para amar...

Dulcinéia: Ótimo. Como você está livre para amar, que tal escolher um desses heróis aqui na revista? Olha isso....que tipão!

Amiga 1: Esse Cavaleiro do Zodíaco não sei não,....

Amiga 2: E este Cavaleiro Amostra Grátis....

Dulcinéia: Gente, eu tô brincando só pra distrair, por que hoje, quer dizer, agora...é a hora da cena final....vamos lá (luz e trilha)

Luz.

 

 

.....

(três pancadas na madeira e a voz) Que Entre os convidados.....

Todos deverão entrar em cena e se posicionar em algum lugar demarcado para o final da peça:

Sancho e Quixote (entrando).

Sancho: Senhor....creio que é nesta praça que tudo deve acontecer.

Quixote: Homens, posicionem-se em pontos estratégicos para me dar cobertura. Já que tenho que duelar por Dulcinéia, o farei nem que seja meu último ato...

Sancho: Última cena o senhor quer dizer.

Palhaço: Boa noite senhoras e senhores....fui colocado nesta peça para uma disputa sem tamanho. O coração de Diolinda....

Ama: Dulcinéia.... (as amigas a repreendem fazendo um xi).

Palhaço: Dulcelinda, a mais bela princesa deste povoado. Prepare-se Quixote, por que eu posso dar meu bote (cai)....

Dulcinéia: Meninas,  é cada uma que nos aparece....

Amiga 1: E não....

Amiga 2:  Que tal bater em retirada...

Dulcinéia: Calma....tudo pelo bem do teatro, eu quero ficar para ver no que vai dar.

Estaleiro: Promoção na minha Estalagem, duas taças de vinho e você bebe a terceira de graça....Gente tá difícil vender heim? Povo vem aqui fica só no papo. Peça ou não, a galera tem que consumir alguma coisa uai.

Palhaço: (ao estaleiro) Te prometo estaleiro, vencendo essa luta eu comerei todos os hamburgeres que fritar....

Estaleiro: Agora sim...e não deixe de experimentar o vinho da casa.(animado).

Quixote: Escolha as armas bufão....jogo de cartas, pif-paf, xadrez ou dois ou um....

...

Prima e Padre entram na cena:

Prima: E por que esse duelo homens?

Padre: Por quem derramam sangue?

Quixote: Pela mais bela flor deste jardim...

Dulcinéia: Ui!

Palhaço: Pela Lua que reflete na noite escura.

Dulcineia: Ai (as amigas lhe acolhem).

Alguém: Senhoras e senhores. O coração tem razão que a própria razão desconhece. Estes dois senhores pretendem disputar está que ali está. Por declararem em todas as mídias seu amor.....por ela.

(lendo um livro) Segundo consta nos autos. Quixote, personagem de Miguel de Cervantes, emprestado aqui como representante de uma maioria sonhadora e apaixonada pelo impossível. Cabe dizer que o mesmo não tem nenhuma particularidade positiva a não ser que sua riqueza é de origem lícita (.....(quase em off) foi paga pra isso dizer).

O Palhaço ator desta Comapnhia, não passa de um enganador pois nem palhaço o é. Se faz dê para atacar jovens indefezas no camarim que eyu vi (também pagaram por isso). Bem...que vença o melhor. Padre! Prossgiga.

....

Padre: Em nome de pater, de mater e de filho....abençoo-o esta contenda e que vença o melhor.

Palhaço: ( a espada em punho) Sou contra o que dizeram a mesmu respeito, sacanagem heim diretor? Vamos sigamos a peça...(explicando pra si mesmo) eu agora com a espada ameaço o tal Quixote. (....) Olha bem, isto é uma espada....ela fura, esse furo sangra, esse sangue escorrre....tendeu....

Sancho: (para Quixote) Senhor....esse palhaço não está de brincadeira....

Ama: Ele quer ver o circo pegar fogo. Com toda certeza.

Estaleiro: Ele quer dar um cheque-mate no jogo.

Quixote: (para o palhaço que se mexe todo fazendo o povo rir) Pois venha de lá com sua espada....que eu vou (apresenta uma arma de fogo) daqui com meu bacamarte.

Padre: Epa! Assim também não. Que vocês se matem tudo bem, mas tem que ser uma luta honesta.

Dançarina: Honesta? Mas quem nesta taberna é honesto, a não ser a distinta plateia...

Ex-Capitão: E o meu pelotão, viu dona dançarina.....todos os meus soldados são honestos para com a pátria armada, digo amada.

Quixote: Ex-Capitão: melhor o você ficar de boca fechada....Empreste sua arma ao palhaço....

Ex-Capitão: Minha arma não tem munição....

Sancho: É só pra encerrar a peça ô....

Ex-Capitão: Ok....tudo bem....tá aqui minha arma com munição. Aliás bala de prata se é que vocês me entendem....

Palhaço: Muito bonito hem primo, eu que lhe confiava tanto....

Ex-Capitão: Nada posso fazer, o autor deste evento trama os mais duros golpes....

....Improvisar o fim do texto como se estivessem sem falas (explico)

...

Dulcinéia: Senhores, parem esta contenda. Vamos fazer uma coisa, já que o autor nos largou aqui....E eu sou a bola da vez. Do auto do meu poder de personagem digo aqui nossas últimas palavras: GAME OVER....

Todos: Game Over!!! (som de bit e uma música animada para os atores darem as mãos e agradecer ao público).

 

J.Cordeirovich  (autor)

Junho19.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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