. Memórias
I – Arribando pra “Sun” Paulo
Era um céu nublado, o
mesmo que sempre estava brilhando a queimar peles como é comum em nossa terra.
Este dia amanheceu estranhamente nublado. Como sempre me considerei filho da
natureza, por estar sempre descalço e a banhar-me no rio Cachoeira, que passava
perto de casa. E por que ela esteve sempre a cuidar deste que se diz filho
dela, mãe natureza, pensei comigo; será por minha causa que hoje o dia
amanheceu desse jeito? Mas o que um garoto de apenas nove anos de idade tem a
pensar sobre céu nublado, família e viagens.
O fato é que depois de
ter ficado por mais de três anos em São Paulo, tentando ganhar a vida, nossa
mãe verdadeira, de carne e osso, retornava para nos levar embora para uma nova
vida em outro lugar, na verdade outro Estado. Há aproximadamente dois mil
quilômetros de distância dali. Já que o
pai havia ido anos antes, mas retornara com uma mão na frente outra atrás, como
se dizia na época, sem condições nenhuma, afinal o álcool não o deixava agir
por si de maneira construtiva. Coube então a mãe a decisão de ir e voltar para
buscar a prole de cinco filhos pequenos.
E o que eu iria deixar
para trás? Uma infância pobre, com muita privação, uma paisagem bela onde
passei a minha tenra infância, um rio não poluído, umas vivências agradáveis e
outras nem tanto e com toda certeza algum trauma por que, quem não adquiriu
traumas da infância e que assim o carrega pra vida toda?
Antes de partir, eu do
alto dos meus nove anos de idade levei a mente a relembrar o que havia vivido
por ali, antes de ir embora de vez para nunca mais voltar. As lembranças nos
minutos restantes, antes da partida, se passaram velozes por minha cabeça.
Lembrei da beira do rio e
os domingos pela manhã quando meu pai nos levava para nadar, e a seguir tomar
um mingau morninho com sabor de milho verde. Que também antes de entrar
propriamente dito na água do rio eu vivia um imaginário filme de ficção no qual
corria, lutava com inimigos inexistentes.
Dessa luta sobre alguma canoa dos pescadores que tinha por ali, eu me
atirava dentro das águas do rio, dando um mergulho profundo pra minha idade e
submergia a gritar como vencedor do “combate”.
A viagem em lombo de
burro, que fizemos com a família, mãe, pai e filhos para uma fazenda próxima.
Meu pai a me consolar enquanto velavam em casa o meu irmão mais novo, morto por
uma dessas doenças endêmicas, típicas destes interiores de nosso país.
De acompanhar a minha
Madrinha de São João*, a quem eu amava muito, até uma fazenda próxima, onde
ela, deixando-me para fora sobre a carroça que nos levou até ali, deitou com um
senhor que para minha compreensão era um velho, um avô. Mas criança curiosa eu
espiando pela fechadura, sempre o buraco da fechadura, vi-a nua sobre o homem
também nu. E voltei para casa sem dizer
uma palavra. Com certeza para não declarar o ciúme, bem provável, que senti. Durante a noite devo ter tido uma febre tão
forte que minha mãe correu a pedir ajuda a minha tia que com seus unguentos e
banho frios me aliviou, afinal médico era coisa muito cara na época e era só
para poucos.
Aliás essa minha tia é um
capítulo a parte pois ela é o começo de tudo na compreensão da cultura que
estava ao nosso entorno e que só vim me dar conta muitos anos depois.
A tia da qual falo,
pessoa maravilhosa como muitas tias que temos, esteve durante grande parte da
sua vida dentro de terreiro de Candomblé*. Mas a idade avançada a trouxe para
dentro de casa onde ela recebia o santo.
Era comum na porta da sua casa em determinado dia da semana, ter uma
fila de pessoas no aguardo de um passe espiritual e um aconselhamento com seu
guia de cabeça, como diziam.
Por sinal, num tempo que
tive uma ameba que provocava febre e sangramento pelo anus, a minha mãe no
desespero e sem médico, levou-me até o guia da minha tia, o velho “Juremeira”,
entidade do bem que dava passe nas pessoas que a ela procurava, e em lágrimas
me entregou a ele dizendo: Salva meu filho. Contou-me ela que a Entidade ali
incorporada na minha tia decretou: “esse menino vai trabalhar para a corrente
das crianças”.
Quase como uma sentença
pro bem, aliás, por meu bem, sempre estive próximo de atividades ligadas as
crianças, inclusive profissionalmente como educador que vim a ser com o
transcorrer dos anos.
Lembro de mim ainda
pequeno. Ficava da janela da casa da tia; Norma era seu nome. Organizando a
fila das pessoas que lhe procuravam e via também que era gente de todo tipo,
crianças, velhos, adultos, jovens, pobres e ricos, que eu percebia mesmo sem
nada saber sobre classe social.
Pois foi esta mesma tia
que um dia, quando eu estava, propriamente dito, entre a vida e a morte. Sem
recursos médicos profissionais, que me entregou literalmente, para uma das
correntes de sua fé, e que o guia dela orientou para minha mãe em prantos, por
conta do filho a morrer, que o filho seria salvo e trabalharia para a corrente
das crianças*. Enfim.
Mas esta é outra
história, ou parte de outra história que devo contar mais à frente. O dia lá em
cima no céu continuava nublado como se rara tempestade fosse cair, o calor
continuava insuportável, mas iríamos partir a qualquer momento e os viajantes
chegam aos poucos se acomodando no veículo.
Preciso esclarecer que o
veículo do qual refiro era mais um destes caminhões Ford anos quarenta, que na
época ia de um Estado a outro levando as pessoas sobre uma cobertura de lona e
traves de madeira onde íamos sentados durante quilômetros e quilômetros sem
fim, sem a menor segurança alias.
Quase a partir o caminhão e as memórias corriam soltas
naquela hora. As manhãs na beira do rio com a minha mãe a lavar roupas, pois essa
era sua profissão na época, lavadeira de pedra de rio*.
Os carnavais de rua. As
mascaradas feitas para assustar crianças. A louca nua que passou perto de casa
e a criançada se alvoroçou para ver. E até lembro que subi no telhado e quase
cai e com meus tantos graus de miopia e que só pude mesmo vislumbrar, lembro
bem, um “tufo”, e como contei aos coleguinhas, um “tufo” preto entre suas
pernas e mais nada além dos mamilos a pular para um lado e outro. Lembrei
também da trilha sonora do lugarejo, feito por um serviço de alto falante
tocando os sucessos do rádio na época, Nelson Gonçalves, Dolores Duran, Ângela
Maria eram os sucessos a época.
Lembrei-me também da
noite que fui levado a uma rádio da cidade, para cantar alguma melodia que nem
lembro qual. Muitas dessas lembranças foram ao longo do tempo, não naquela hora
da partida, mas nos anos que se seguiram, fui registrando em versos que hoje
constam dos livros que publiquei as próprias custas. Enfim, muitas lembranças
para um menino de nove anos apenas que olhava o mundo assustado por estar nele
e por estar indo para um destino desconhecido.
Seguiam comigo, além da
minha mãe, as três irmãs e muito pouco para se levar na viagem. Não me lembro
de bagagem. E nestas cenas atuais que vemos nas televisões e nos jornais, vendo
essa gente migrando, fugindo da guerra e da fome e me identifico de imediato
pois não éramos em nada diferente.
Tenho plena certeza que
migrávamos para outro Estado com a esperança de sair da miséria e da fome. Mas
o caminhão velho ainda não ligara seu motor e o céu continuava estranhamente
nublado. E eu pensava meio egoísta: está assim por que eu vou partir e é provável
que caia uma chuva forte. São as lágrimas dos nossos poucos parentes que aqui
vieram se despedir, dizia minha tia.
E enquanto dávamos
abraços e beijos emocionados as lembranças corriam solta. Dos carnavais
passados e as máscaras para assustar
crianças que os adultos faziam questão de fazer; das mortes por afogamento no
mesmo rio onde passei a infância e os bombeiros a puxar corpos inertes de morte
por afogamento e não poderia deixar lembrar minhas descoberta do sexo nas águas
daquele rio, a primeira ereção sem saber do que se tratava aquilo e de ter sido
molestado por um vizinho que morava em frente de casa e tinha aquele ar de
rebelde sem causa dos anos sessenta, com aquela mecha de cabelo tipo Elvis
Presley, mas lembro também que minha curiosidade me levou pra dentro de sua
casa e quanto ele usou minha mão para tocar no seu sexo eu não me recusei,
aceitei como um cordeirinho e mexi aquilo até sair um líquido viscoso que
lambuzou minha cara num esguicho forte e só depois a saber que aquilo era sêmen
e que a atitude dele era de pedófilo, pois eu era um menino que do mundo nada
sabia. E quando me lembrei disto quis logo esquecer pois a minha culpa era de
ser eu um pecador por ter intimidades com gente grande, como se dizia na época.
Enfim, esse filme corria
em minha mente e ansioso aguardava a partida do caminhão que creio acabou
acontecendo sem eu perceber pois por ficar ali muito tempo aguardando e esses
pensamentos cruzando minha cabeça acabei dormindo e só fui acordar horas depois
há alguns quilômetros da minha terra natal.
II – Na estrada
Dá viagem lembro muito
pouco e somente alguns flashes marcantes como o de ter acabado a nossa comida,
pois a mãe já não tinha mais como comprar e o que levávamos não era suficiente.
Mas também que só acabou por que ao invés de quarenta e oito horas para realizar
a viagem, por motivo de intervenções políticas levamos o dobro quase o trilo do
tempo para realiza-la, afinal era mês de março daquele ano e havia um golpe
militar sendo instaurado no país e a gasolina era controlada ou escasseada
devido a situação do país.
Lembro que em determinado
trecho da estrada o caminhão foi parado pelos militares fortemente armados e
todos os homens adultos desceram para uma revista e que eu mesmo sendo criança
desci também e para chacota dos outros me coloquei na fileira dos homens de
mãos para cima para cumprir a ordem do soldado. E que havia pela manhã uma
forte neblina cobrindo tudo na altura ali de Vitória da Conquista, de maneira
que sob a forte névoa pouco se podia enxergar a frente. Mas minha mãe que era
daquela região pode comentar um pouco sobre aquele lugar e seu passado por ali
quando ela era bem jovem e trabalhava numa fazenda e que era comum subir como
escada pela pilha de queijos que se guardava num dos galpões onde ela passou
parte de sua vida antes de ir para Itabuna, cidade onde conheceu meu pai e
acabaram, como se dizia, juntando os panos.
Foi Mário de Andrade que
escreveu: “São Paulo, Londres de garoas finas” não foi? Pois é, foi nesta
Londres de garoas finas que chegou a nossa família. E só em São Paulo é que vim a descobrir meus
quase oito graus de miopia, o que não é pouco pois lembro que ainda de pequeno
vivia com os pés sangrando, resultado das inúmeras acertadas dos dedos nas
pedras comuns pelos caminhos entre a casa e o rio.
E ainda nem bem chegamos ao destino e as
minhas memórias me perseguindo. E se falo dos dedos dos pés sangrando, da minha
miopia descoberta quando eu já era um menino de aproximadamente dez anos. É que
me recordo de uma vez tomar uma pedrada na testa, justamente por não enxergar
bem. Permita-me rememorar e lembrar com mais detalhes algumas dessas passagens,
como tantas outras que considero interessantes, quase cômicas mesmo.
Miopia
Tinha eu uns sete, oito
anos e estava lá na beira do rio, certamente sem a presença da mãe que ali
também trabalhava como lavadeira; e outras crianças chegando para brincar
começaram uma disputa de quem nadaria mais longe. Era um desafio e criança
normalmente gosta muito de desafios. Eu não deixei por menos e entrei na
brincadeira, indo mergulhar e sair bem distante da margem.
Mas a molecada em
alvoroço e com uma pedra demarcava a distancia a ser vencida. O sol, das duas
da tarde, braseiro que só, ardia no céu, e quando com as vistas embaralhadas
pela água e a miopia, achei que fosse um balão caindo na minha direção, levei
foi uma pedrada na testa que fez o sangue escorrer feio.
Lembro que nadei em
direção a margem enquanto via umas “nuvens” de sangue passar por mim colorindo
a água durante minha submersão para sair dali. Ao chegar a margem peguei uma
daquelas bacias das lavadeiras, que normalmente ficavam por ali jogadas e
colocando na cabeça rumei para casa chorando e claro, em casa tomei uns tapas
da minha querida tia Norma, que na época era responsável por cuidar de mim e
que só depois de ter insistido muito, mas muito mesmo para ir sozinho nadar no
rio foi que ela havia deixado, então eram merecidos os sopapos que ela me deu.
Fome
O dia começou sem nada
para o café da manhã, e pro almoço então nem pensar. A minha mãe saíra cedo
para labuta na pedra do rio, mas dinheiro pra comprar pão, por exemplo, não se
tinha. O pai, ajudante de pedreiro e sem serviço, saiu um pouco depois ficando
em casa os cinco, seis filhos. A quantidade é incorreta por que eu era pequeno
e não faço a menor ideia de números exato familiar, só que a minha mãe teve
oito filhos, sendo que três deles pereceram bem cedo e bem pequenos, certamente
por questões de saúde provocadas pela fome. Neste dia, a gente procurava uma
fruta qualquer e nada. Creio que devo ter ido para beira do rio, para esquecer
a fome e brincar um pouco em suas águas límpidas.
Já ia longe o dia quando voltamos para casa e não tardou o pai chegar trazendo algo como miolos de boi. Sim, entendo que ele deve ter ido a algum matadouro e pediu para colher do boi abatido, os miolos e os trouxe para casa. A mãe deve ter pego uns temperos típicos do lugar e fazendo um cozido deu-nos para matar a fome, mas na minha recordação, o sabor daquele prato era tão aprazível que poderia chamá-lo de manjar dos deuses. Nunca esquecerei que naquele dia provei um prato delicioso feito com os miolos do boi.
FOME II
Lembro muito bem da
primeira vez que comi macarrão. Ela retornou de uma de suas viagens ao centro
sul, trazendo entre as lembrancinhas, uma iguaria chamada macarrão. Eu,
criança, nunca tinha ouvido falar naquela comida. E fazendo um belo de um molho
de tomate, coisa também não muito comum, colocou aquelas hastes amareladas na
água fervente e serviu a todos nós. Mas com um pequeno detalhe. Nós que sempre
comemos o arroz e feijão acompanhado por farinha de mandioca, não deixamos por
menos, eu e as irmãs. Nos deliciamos com aquele prato cheio de molho, macarrão
e ao invés do queijo ralado que só descobri anos depois, uma boa quantidade de
farinha de mandioca se passando por queijo. Enfim, para matar a fome e inserir
novos alimentos no cardápio da casa, a gente fez essa adaptação que teve seu
objetivo totalmente cumprido, matar a fome daqueles pequenos esfomeados.
Quem nunca passou fome,
ou seja, esteve horas sem nada comer, não faz a menor ideia do que seja fome
mesmo. Não é somente a fome física, é fome social por falta de justiça. Todo
governante de um estado ou país devem se alertar a respeito deste item fome,
pois é uma situação desagradável, degradante e que tem nos governos a
responsabilidade maior de não fazer chegar até suas crianças e jovens um prato
de alimentos. Fica o alerta.
Sobre fome eu teria muito
a escrever mas de nada adiantaria relatar aqui estes malefícios da vida,
afinal, enquanto vítima de alguma maneira de uma sociedade injusta, você pouco
tem consciência e a ausência de alimento com toda certeza só lhe tira as forças
básicas para sobrevivência e quem diz que não se morre um pouquinho? Afinal
nossas células precisam disto não? Mas não sou e nem serei o único, quando
criança, a passar privações de toda sorte. Como diz o poeta maior: “O
Nordestino é antes de tudo um forte”, pois sobrevive, a duras penas, mas
sobrevive. E parece que eu fui mais um que sobreviveu se não, não estaria por
aqui ruminando estas palavras.
SEXO
A primeira ereção de que
lembro, ou da sensação de tesão, foi ainda ali por volta dos seis ou sete anos
ao brincar no mesmo rio de minha infância. Rio este que marcou muito a minha
primeira fase de vida. Pois foi justamente neste rio, quando um dia, não lembro
pela manhã ou a tarde, brincando com
algum amiguinho de pega-pega na água. Quando numa dessas pegadas a gente se
atracou corpo a corpo e nossas pernas se prenderam umas nas outras de tal
maneira que eu senti aquela sensação entre as virilhas e de pronto não entendia
do que se tratava. Só com o passar do tempo é que fui perceber que aquilo era
tesão. Foi uma sensação passageira, mas muito agradável que nunca mais eu
esqueci.
Susto
Tinha eu uns, não mais
que cinco anos. E só me lembro de ser noite e a minha irmã mais velha estar
comigo numa reunião num centro espírita. Tudo corria bem quando de repente uma
entidade deu uma pancada forte na mesa, que para mim pareceu uma repreensão,
algo como uma bronca de alguém para alguém, mas, eu pequeno e sentado na
cadeira ali mesmo tomei um susto tão grande que evacuei nas calças por medo. E
minha irmã Lia, sempre ela, me levou nos braços para casa que não era muito
longe dali.
Queda
Uma família de classe
média tinha alguma ligação com nossa família justamente por serem parentes
daqueles que tiveram minha mãe como doméstica por muitos anos. Aquela era a
família rica e nós éramos a família pobre. E lembro que íamos àquele endereço
talvez para ganhar alguma ajuda e o fato é que as outras crianças da casa não
iam, como se diz, com a nossa cara e foi numa dessas visitas que fizemos que
uma das crianças me empurrou na escada com tal força que rolei escada abaixo e
me esborrachei todo. Lembro que a minha irmã, que nos acompanhava, teve que me
amparar nas costas para que pudéssemos chegar até em casa. Mais uma vez a Lia,
nossa irmã mais velha, que deve ganhar um capítulo a parte por merecimento,
levou nas costas por que eu não conseguia por o pé no chão. Obrigado Lia.
MÚSICA
Creio que sempre gostei
muito de cantar. Até por influência direta da mãe que na beira do rio, enquanto
lavava seus panos, cantava. Ela que na juventude era levada nas fazendas de
cacau para animar festas com o seu cantar, assim contava meu pai. Não que fosse
uma grande cantora, mas alguém que gostava muito do canto e com certeza era
atualizada no último lançamento da boa música popular brasileira.
Bem provável que por
conta destas características da minha mãe eu herdei, podemos dizer assim, o
gosto por cantar. E isso começou sedo por que lembro que uns meses antes da
partida fui levado pela tia ou lá quem mais, numa rádio da cidade e lá abri o
coração, o peito e a boca e cantei. Não lembro mais da canção, mas de me sentir
realizado com aquele fato de ir até e diante do microfone abrir o coração e
soltar a voz.
Música 2 : Creio que e só por influência da minha mãe eu tomei gosto por cantar e vivia a cantar imaginado as vezes, uma orquestra a me acompanhar além da plateia. E que havia um serviço de alto falante em nosso bairro que tocava os sucessos do momento e lembro que uma noite fui levado a uma rádio da cidade e lá estando cantei alguma música que lembro qual, o que mostra que alguma relação aquele menino tinha com a arte de cantar.
Tio Nelson:
Eu inda era bem criança
quando na casa da minha tinha ouvia o tossir deste tio. Ele normalmente estava
sempre deitado ou fazendo coisas pequenas por ali. Um café, as vezes, um lavar
a louça certamente, estender suas vestes
no varal enfim. A tosse constante aparecia mais a noite, nem tanto
durante o dia sempre de calor e sol abrasador. Tia Norma sua irmã, sempre mais
ágil resolvia as questões domésticas além de fazer seu “trabalho” de
benzedeira, atendendo a todos que batiam a sua porta. E não sei se já contei
aqui, até fila na porta as vezes tinha e eu cuidava da fila, curioso para
conhecer as pessoas que se achegavam para tomar um benzimento. Certo dia, creio
que era mês de junho, pois as ruas estavam embandeiradas e havia fogueiras por
toda parte. Estava na janela a observar o movimento, a mesma janela de onde eu
controlava a fila do benzimento e passou uma espécie de folguedo popular, com
sanfona, violão, pandeiro, zabumba entre outros instrumentos musicais numa
cantoria muito animada. E de repente, quem eu avisto no meio do folguedo,
tocando um pandeiro? Ele mesmo, o tio Nelson. E eu não havia dado falta dele,
afinal criança não fica pensando no que e quem, vive a infância cada momento e
vai crescendo. Mas naquele começo de noite eu pude ver o tio na farra junina a
cantar e tocar. Corri para conferir se ele não estava lá na cama. Afinal,
míope, acaba vendo coisas onde não há. A cama vazia confirmou, era mesmo o tio
Nelson que eu vi passando na rua com seus amigos naquele festejar o São João.
Devo, horas depois ter ido dormir e vagamente me vem que quando eu acordei no
outro dia a minha tia em prantos comunicava para o resto da família que o tio
Nelson, aquele mesmo que na noite anterior dançava e cantava depois de anos e
anos de tosse seca e barulhenta, havia morrido dormindo. Muito medroso que eu
era não quis mais entrar naquele quarto onde ele habitava e de vez em quando
ainda punha o ouvido na porta fechada a escutar se ouvia alguma tosse. Mas
acabei crescendo e nunca mais revi o tio animado daquela noite.
Tia Norma
Ela era do tipo “confuso” pele branca, cabelos bem negros,
aparência de europeu com índio brasileiro e passou parte da sua juventude
envolvida com a maio expressão de religiosidade e fé de sua época, para os
parâmetros da terra onde nascera, a Bahia. Baiana do Candomblé, já tinhas seus
mais de cinquenta anos talvez, quando vim a reconhece-la como irmã do meu pai
de criação, de alguma maneira, minha tia. Tia Norma um doce de pessoa, lembro
bem, em dias de calor eram pelos menos três banhos ao dia, com direito a troca
de roupas e arranjos diferentes nas madeixas de ébano. Do Candomblé, herdou um
“guia de cabeça” que lhe fazia uma “visita” pelo menos uma vez por semana e era
neste exato dia que se formava uma fila na porta, de todo tipo de gente
buscando tomar um passe espiritual quando não uma reza com folhas de arruda.
Foi pra esse guia que fui entregue aos quatro ou cinco anos, quando penava com
uma “ameba” que me deixava inchado e com sangramento anal. Foi o guia dela que
ante as lágrimas da minha mãe sentenciou que eu iria sobreviver aquela doença e
servir na “corrente das crianças”. Essa linguagem toda é muito dessa cultura
baiana. Ou seja: “guia de cabeça”, “corrente das crianças” tudo isso se refere
a essa cultura afrodescendente que quem é destes estado herdou dos tempos
coloniais. Lembro que eu ficava da janela, afinal não poderia sair para rua, e
orientava de pequeno, a entrada na casa, das pessoas que vinham se “consultar”
com o guia da tia Norma, que depois do transe e quando todos se iam, comentava
orgulhosa se um advogado ou professora (altas patentes na época) vieram se
“consultar” com o Velho Juremeira, seu santo de cabeça. Tia Norma tinha um
humor especial e algumas vezes a pegava dançando o estilo foxtrote, que depois
soube ser um estilo de dança do seu tempo de adolescência. Mascando fumo de
corda e cuspindo pelos cantos da casa de chão batido, seguia nos seus afazeres
doméstico, entre eles cuidar dos sobrinhos que eram deixados na casa quando o
povo saia para se aventurar pelo mundo, como foi o caso do meu pai e depois da
minha mãe quando partiu para SP.
Miopia 2 – A louca.
Começo de noite, a
tardinha caindo com uma preguiça só. Um alvoroço na vizinhança e os gritos de
“a louca tá nua!”. Para adultos talvez uma coisa normal, mas não para crianças
curiosas como eu. A louca vinha caminhando pela estrada que ficava abaixo do
terreno da a casa da tia. Só restou uma alternativa, para matar minha
curiosidade em ver a louca e a nudez dela. Sorrateiramente subi no telhado de
maneira que ninguém me visse. Acompanhei aquela mulher sem nem uma peça de
roupa, nem sapato, nem nada, como se diz, estava como nasceu. Mas maldita
miopia, enxergava bem pouco mas distingui entre suas coxas roliças um “tufo” de
pelos negros e fiquei angustiado por que não vi a vagina dela. Não sabia como
era, não fazia ideia do tamanho, da forma de nada. Desci de lá, cégo quase que
sempre fui e decepcionado, com os coleguinhas da mesma idade fingia ter visto
tudo e me vangloriava entre eles dizendo que tinha visto tudo, mas na minha
mente só via aquele ponto negro entre suas pernas e das nádegas nem pude
observar pois a minha tia que me descobriu ali, chamou-me pelo nome completo
num tom repressor como quem diz: toma vergonha moleque.
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