quinta-feira, 22 de abril de 2021

Memórias do Agora Mesmo

 

. Memórias

 

I – Arribando pra “Sun” Paulo

                   

Era um céu nublado, o mesmo que sempre estava brilhando a queimar peles como é comum em nossa terra. Este dia amanheceu estranhamente nublado. Como sempre me considerei filho da natureza, por estar sempre descalço e a banhar-me no rio Cachoeira, que passava perto de casa. E por que ela esteve sempre a cuidar deste que se diz filho dela, mãe natureza, pensei comigo; será por minha causa que hoje o dia amanheceu desse jeito? Mas o que um garoto de apenas nove anos de idade tem a pensar sobre céu nublado, família e viagens.

O fato é que depois de ter ficado por mais de três anos em São Paulo, tentando ganhar a vida, nossa mãe verdadeira, de carne e osso, retornava para nos levar embora para uma nova vida em outro lugar, na verdade outro Estado. Há aproximadamente dois mil quilômetros de distância dali.  Já que o pai havia ido anos antes, mas retornara com uma mão na frente outra atrás, como se dizia na época, sem condições nenhuma, afinal o álcool não o deixava agir por si de maneira construtiva. Coube então a mãe a decisão de ir e voltar para buscar a prole de cinco filhos pequenos.

E o que eu iria deixar para trás? Uma infância pobre, com muita privação, uma paisagem bela onde passei a minha tenra infância, um rio não poluído, umas vivências agradáveis e outras nem tanto e com toda certeza algum trauma por que, quem não adquiriu traumas da infância e que assim o carrega pra vida toda?

Antes de partir, eu do alto dos meus nove anos de idade levei a mente a relembrar o que havia vivido por ali, antes de ir embora de vez para nunca mais voltar. As lembranças nos minutos restantes, antes da partida, se passaram velozes por minha cabeça.

Lembrei da beira do rio e os domingos pela manhã quando meu pai nos levava para nadar, e a seguir tomar um mingau morninho com sabor de milho verde. Que também antes de entrar propriamente dito na água do rio eu vivia um imaginário filme de ficção no qual corria, lutava com inimigos inexistentes.  Dessa luta sobre alguma canoa dos pescadores que tinha por ali, eu me atirava dentro das águas do rio, dando um mergulho profundo pra minha idade e submergia a gritar como vencedor do “combate”.

A viagem em lombo de burro, que fizemos com a família, mãe, pai e filhos para uma fazenda próxima. Meu pai a me consolar enquanto velavam em casa o meu irmão mais novo, morto por uma dessas doenças endêmicas, típicas destes interiores de nosso país.

De acompanhar a minha Madrinha de São João*, a quem eu amava muito, até uma fazenda próxima, onde ela, deixando-me para fora sobre a carroça que nos levou até ali, deitou com um senhor que para minha compreensão era um velho, um avô. Mas criança curiosa eu espiando pela fechadura, sempre o buraco da fechadura, vi-a nua sobre o homem também nu. E  voltei para casa sem dizer uma palavra. Com certeza para não declarar o ciúme,  bem provável, que senti.  Durante a noite devo ter tido uma febre tão forte que minha mãe correu a pedir ajuda a minha tia que com seus unguentos e banho frios me aliviou, afinal médico era coisa muito cara na época e era só para poucos.

Aliás essa minha tia é um capítulo a parte pois ela é o começo de tudo na compreensão da cultura que estava ao nosso entorno e que só vim me dar conta muitos anos depois.

A tia da qual falo, pessoa maravilhosa como muitas tias que temos, esteve durante grande parte da sua vida dentro de terreiro de Candomblé*. Mas a idade avançada a trouxe para dentro de casa onde ela recebia o santo.  Era comum na porta da sua casa em determinado dia da semana, ter uma fila de pessoas no aguardo de um passe espiritual e um aconselhamento com seu guia de cabeça, como diziam.

Por sinal, num tempo que tive uma ameba que provocava febre e sangramento pelo anus, a minha mãe no desespero e sem médico, levou-me até o guia da minha tia, o velho “Juremeira”, entidade do bem que dava passe nas pessoas que a ela procurava, e em lágrimas me entregou a ele dizendo: Salva meu filho. Contou-me ela que a Entidade ali incorporada na minha tia decretou: “esse menino vai trabalhar para a corrente das crianças”.

Quase como uma sentença pro bem, aliás, por meu bem, sempre estive próximo de atividades ligadas as crianças, inclusive profissionalmente como educador que vim a ser com o transcorrer dos anos.

Lembro de mim ainda pequeno. Ficava da janela da casa da tia; Norma era seu nome. Organizando a fila das pessoas que lhe procuravam e via também que era gente de todo tipo, crianças, velhos, adultos, jovens, pobres e ricos, que eu percebia mesmo sem nada saber sobre classe social.

Pois foi esta mesma tia que um dia, quando eu estava, propriamente dito, entre a vida e a morte. Sem recursos médicos profissionais, que me entregou literalmente, para uma das correntes de sua fé, e que o guia dela orientou para minha mãe em prantos, por conta do filho a morrer, que o filho seria salvo e trabalharia para a corrente das crianças*. Enfim.

Mas esta é outra história, ou parte de outra história que devo contar mais à frente. O dia lá em cima no céu continuava nublado como se rara tempestade fosse cair, o calor continuava insuportável, mas iríamos partir a qualquer momento e os viajantes chegam aos poucos se acomodando no veículo.

Preciso esclarecer que o veículo do qual refiro era mais um destes caminhões Ford anos quarenta, que na época ia de um Estado a outro levando as pessoas sobre uma cobertura de lona e traves de madeira onde íamos sentados durante quilômetros e quilômetros sem fim, sem a menor segurança alias.

Quase a partir  o caminhão e as memórias corriam soltas naquela hora. As manhãs na beira do rio com a minha mãe a lavar roupas, pois essa era sua profissão na época, lavadeira de pedra de rio*.

Os carnavais de rua. As mascaradas feitas para assustar crianças. A louca nua que passou perto de casa e a criançada se alvoroçou para ver. E até lembro que subi no telhado e quase cai e com meus tantos graus de miopia e que só pude mesmo vislumbrar, lembro bem, um “tufo”, e como contei aos coleguinhas, um “tufo” preto entre suas pernas e mais nada além dos mamilos a pular para um lado e outro. Lembrei também da trilha sonora do lugarejo, feito por um serviço de alto falante tocando os sucessos do rádio na época, Nelson Gonçalves, Dolores Duran, Ângela Maria eram os sucessos a época.

Lembrei-me também da noite que fui levado a uma rádio da cidade, para cantar alguma melodia que nem lembro qual. Muitas dessas lembranças foram ao longo do tempo, não naquela hora da partida, mas nos anos que se seguiram, fui registrando em versos que hoje constam dos livros que publiquei as próprias custas. Enfim, muitas lembranças para um menino de nove anos apenas que olhava o mundo assustado por estar nele e por estar indo para um destino desconhecido.

Seguiam comigo, além da minha mãe, as três irmãs e muito pouco para se levar na viagem. Não me lembro de bagagem. E nestas cenas atuais que vemos nas televisões e nos jornais, vendo essa gente migrando, fugindo da guerra e da fome e me identifico de imediato pois não éramos em nada diferente.

Tenho plena certeza que migrávamos para outro Estado com a esperança de sair da miséria e da fome. Mas o caminhão velho ainda não ligara seu motor e o céu continuava estranhamente nublado. E eu pensava meio egoísta: está assim por que eu vou partir e é provável que caia uma chuva forte. São as lágrimas dos nossos poucos parentes que aqui vieram se despedir, dizia minha tia.

E enquanto dávamos abraços e beijos emocionados as lembranças corriam solta. Dos carnavais passados e  as máscaras para assustar crianças que os adultos faziam questão de fazer; das mortes por afogamento no mesmo rio onde passei a infância e os bombeiros a puxar corpos inertes de morte por afogamento e não poderia deixar lembrar minhas descoberta do sexo nas águas daquele rio, a primeira ereção sem saber do que se tratava aquilo e de ter sido molestado por um vizinho que morava em frente de casa e tinha aquele ar de rebelde sem causa dos anos sessenta, com aquela mecha de cabelo tipo Elvis Presley, mas lembro também que minha curiosidade me levou pra dentro de sua casa e quanto ele usou minha mão para tocar no seu sexo eu não me recusei, aceitei como um cordeirinho e mexi aquilo até sair um líquido viscoso que lambuzou minha cara num esguicho forte e só depois a saber que aquilo era sêmen e que a atitude dele era de pedófilo, pois eu era um menino que do mundo nada sabia. E quando me lembrei disto quis logo esquecer pois a minha culpa era de ser eu um pecador por ter intimidades com gente grande, como se dizia na época.

Enfim, esse filme corria em minha mente e ansioso aguardava a partida do caminhão que creio acabou acontecendo sem eu perceber pois por ficar ali muito tempo aguardando e esses pensamentos cruzando minha cabeça acabei dormindo e só fui acordar horas depois há alguns quilômetros da minha terra natal.

 

II – Na estrada

 

 

Dá viagem lembro muito pouco e somente alguns flashes marcantes como o de ter acabado a nossa comida, pois a mãe já não tinha mais como comprar e o que levávamos não era suficiente. Mas também que só acabou por que ao invés de quarenta e oito horas para realizar a viagem, por motivo de intervenções políticas levamos o dobro quase o trilo do tempo para realiza-la, afinal era mês de março daquele ano e havia um golpe militar sendo instaurado no país e a gasolina era controlada ou escasseada devido a situação do país.

Lembro que em determinado trecho da estrada o caminhão foi parado pelos militares fortemente armados e todos os homens adultos desceram para uma revista e que eu mesmo sendo criança desci também e para chacota dos outros me coloquei na fileira dos homens de mãos para cima para cumprir a ordem do soldado. E que havia pela manhã uma forte neblina cobrindo tudo na altura ali de Vitória da Conquista, de maneira que sob a forte névoa pouco se podia enxergar a frente. Mas minha mãe que era daquela região pode comentar um pouco sobre aquele lugar e seu passado por ali quando ela era bem jovem e trabalhava numa fazenda e que era comum subir como escada pela pilha de queijos que se guardava num dos galpões onde ela passou parte de sua vida antes de ir para Itabuna, cidade onde conheceu meu pai e acabaram, como se dizia, juntando os panos.

Foi Mário de Andrade que escreveu: “São Paulo, Londres de garoas finas” não foi? Pois é, foi nesta Londres de garoas finas que chegou a nossa família.  E só em São Paulo é que vim a descobrir meus quase oito graus de miopia, o que não é pouco pois lembro que ainda de pequeno vivia com os pés sangrando, resultado das inúmeras acertadas dos dedos nas pedras comuns pelos caminhos entre a casa e o rio.

 E ainda nem bem chegamos ao destino e as minhas memórias me perseguindo. E se falo dos dedos dos pés sangrando, da minha miopia descoberta quando eu já era um menino de aproximadamente dez anos. É que me recordo de uma vez tomar uma pedrada na testa, justamente por não enxergar bem. Permita-me rememorar e lembrar com mais detalhes algumas dessas passagens, como tantas outras que considero interessantes, quase cômicas mesmo.

 

 

 

 

Miopia

Tinha eu uns sete, oito anos e estava lá na beira do rio, certamente sem a presença da mãe que ali também trabalhava como lavadeira; e outras crianças chegando para brincar começaram uma disputa de quem nadaria mais longe. Era um desafio e criança normalmente gosta muito de desafios. Eu não deixei por menos e entrei na brincadeira, indo mergulhar e sair bem distante da margem.

Mas a molecada em alvoroço e com uma pedra demarcava a distancia a ser vencida. O sol, das duas da tarde, braseiro que só, ardia no céu, e quando com as vistas embaralhadas pela água e a miopia, achei que fosse um balão caindo na minha direção, levei foi uma pedrada na testa que fez o sangue escorrer feio.

Lembro que nadei em direção a margem enquanto via umas “nuvens” de sangue passar por mim colorindo a água durante minha submersão para sair dali. Ao chegar a margem peguei uma daquelas bacias das lavadeiras, que normalmente ficavam por ali jogadas e colocando na cabeça rumei para casa chorando e claro, em casa tomei uns tapas da minha querida tia Norma, que na época era responsável por cuidar de mim e que só depois de ter insistido muito, mas muito mesmo para ir sozinho nadar no rio foi que ela havia deixado, então eram merecidos os sopapos que ela me deu.

 

 

Fome

O dia começou sem nada para o café da manhã, e pro almoço então nem pensar. A minha mãe saíra cedo para labuta na pedra do rio, mas dinheiro pra comprar pão, por exemplo, não se tinha. O pai, ajudante de pedreiro e sem serviço, saiu um pouco depois ficando em casa os cinco, seis filhos. A quantidade é incorreta por que eu era pequeno e não faço a menor ideia de números exato familiar, só que a minha mãe teve oito filhos, sendo que três deles pereceram bem cedo e bem pequenos, certamente por questões de saúde provocadas pela fome. Neste dia, a gente procurava uma fruta qualquer e nada. Creio que devo ter ido para beira do rio, para esquecer a fome e brincar um pouco em suas águas límpidas.

Já ia longe o dia quando voltamos para casa e não tardou o pai chegar trazendo algo como miolos de boi. Sim, entendo que ele deve ter ido a algum matadouro e pediu para colher do boi abatido, os miolos e os trouxe para casa. A mãe deve ter pego uns temperos típicos do lugar e fazendo um cozido deu-nos para matar a fome, mas na minha recordação, o sabor daquele prato era tão aprazível que poderia chamá-lo de manjar dos deuses. Nunca esquecerei que naquele dia provei um prato delicioso feito com os miolos do boi.

 

FOME II

 

Lembro muito bem da primeira vez que comi macarrão. Ela retornou de uma de suas viagens ao centro sul, trazendo entre as lembrancinhas, uma iguaria chamada macarrão. Eu, criança, nunca tinha ouvido falar naquela comida. E fazendo um belo de um molho de tomate, coisa também não muito comum, colocou aquelas hastes amareladas na água fervente e serviu a todos nós. Mas com um pequeno detalhe. Nós que sempre comemos o arroz e feijão acompanhado por farinha de mandioca, não deixamos por menos, eu e as irmãs. Nos deliciamos com aquele prato cheio de molho, macarrão e ao invés do queijo ralado que só descobri anos depois, uma boa quantidade de farinha de mandioca se passando por queijo. Enfim, para matar a fome e inserir novos alimentos no cardápio da casa, a gente fez essa adaptação que teve seu objetivo totalmente cumprido, matar a fome daqueles pequenos esfomeados.

Quem nunca passou fome, ou seja, esteve horas sem nada comer, não faz a menor ideia do que seja fome mesmo. Não é somente a fome física, é fome social por falta de justiça. Todo governante de um estado ou país devem se alertar a respeito deste item fome, pois é uma situação desagradável, degradante e que tem nos governos a responsabilidade maior de não fazer chegar até suas crianças e jovens um prato de alimentos. Fica o alerta.

Sobre fome eu teria muito a escrever mas de nada adiantaria relatar aqui estes malefícios da vida, afinal, enquanto vítima de alguma maneira de uma sociedade injusta, você pouco tem consciência e a ausência de alimento com toda certeza só lhe tira as forças básicas para sobrevivência e quem diz que não se morre um pouquinho? Afinal nossas células precisam disto não? Mas não sou e nem serei o único, quando criança, a passar privações de toda sorte. Como diz o poeta maior: “O Nordestino é antes de tudo um forte”, pois sobrevive, a duras penas, mas sobrevive. E parece que eu fui mais um que sobreviveu se não, não estaria por aqui ruminando estas palavras.

 

 

SEXO

A primeira ereção de que lembro, ou da sensação de tesão, foi ainda ali por volta dos seis ou sete anos ao brincar no mesmo rio de minha infância. Rio este que marcou muito a minha primeira fase de vida. Pois foi justamente neste rio, quando um dia, não lembro  pela manhã ou a tarde, brincando com algum amiguinho de pega-pega na água. Quando numa dessas pegadas a gente se atracou corpo a corpo e nossas pernas se prenderam umas nas outras de tal maneira que eu senti aquela sensação entre as virilhas e de pronto não entendia do que se tratava. Só com o passar do tempo é que fui perceber que aquilo era tesão. Foi uma sensação passageira, mas muito agradável que nunca mais eu esqueci.

 


Susto

 

Tinha eu uns, não mais que cinco anos. E só me lembro de ser noite e a minha irmã mais velha estar comigo numa reunião num centro espírita. Tudo corria bem quando de repente uma entidade deu uma pancada forte na mesa, que para mim pareceu uma repreensão, algo como uma bronca de alguém para alguém, mas, eu pequeno e sentado na cadeira ali mesmo tomei um susto tão grande que evacuei nas calças por medo. E minha irmã Lia, sempre ela, me levou nos braços para casa que não era muito longe dali.


 

Queda

Uma família de classe média tinha alguma ligação com nossa família justamente por serem parentes daqueles que tiveram minha mãe como doméstica por muitos anos. Aquela era a família rica e nós éramos a família pobre. E lembro que íamos àquele endereço talvez para ganhar alguma ajuda e o fato é que as outras crianças da casa não iam, como se diz, com a nossa cara e foi numa dessas visitas que fizemos que uma das crianças me empurrou na escada com tal força que rolei escada abaixo e me esborrachei todo. Lembro que a minha irmã, que nos acompanhava, teve que me amparar nas costas para que pudéssemos chegar até em casa. Mais uma vez a Lia, nossa irmã mais velha, que deve ganhar um capítulo a parte por merecimento, levou nas costas por que eu não conseguia por o pé no chão. Obrigado Lia.

 

 

 

MÚSICA

 

Creio que sempre gostei muito de cantar. Até por influência direta da mãe que na beira do rio, enquanto lavava seus panos, cantava. Ela que na juventude era levada nas fazendas de cacau para animar festas com o seu cantar, assim contava meu pai. Não que fosse uma grande cantora, mas alguém que gostava muito do canto e com certeza era atualizada no último lançamento da boa música popular brasileira.

Bem provável que por conta destas características da minha mãe eu herdei, podemos dizer assim, o gosto por cantar. E isso começou sedo por que lembro que uns meses antes da partida fui levado pela tia ou lá quem mais, numa rádio da cidade e lá abri o coração, o peito e a boca e cantei. Não lembro mais da canção, mas de me sentir realizado com aquele fato de ir até e diante do microfone abrir o coração e soltar a voz.

 

Música 2 : Creio que e só por influência da minha mãe eu tomei gosto por cantar e vivia a cantar imaginado as vezes, uma orquestra a me acompanhar além da plateia. E que havia um serviço de alto falante em nosso bairro que tocava os sucessos do momento e lembro que uma noite fui levado a uma rádio da cidade e lá estando cantei alguma música que lembro qual, o que mostra que alguma relação aquele menino tinha com a arte de cantar.

 

Tio Nelson:

Eu inda era bem criança quando na casa da minha tinha ouvia o tossir deste tio. Ele normalmente estava sempre deitado ou fazendo coisas pequenas por ali. Um café, as vezes, um lavar a louça certamente, estender suas vestes  no varal enfim. A tosse constante aparecia mais a noite, nem tanto durante o dia sempre de calor e sol abrasador. Tia Norma sua irmã, sempre mais ágil resolvia as questões domésticas além de fazer seu “trabalho” de benzedeira, atendendo a todos que batiam a sua porta. E não sei se já contei aqui, até fila na porta as vezes tinha e eu cuidava da fila, curioso para conhecer as pessoas que se achegavam para tomar um benzimento. Certo dia, creio que era mês de junho, pois as ruas estavam embandeiradas e havia fogueiras por toda parte. Estava na janela a observar o movimento, a mesma janela de onde eu controlava a fila do benzimento e passou uma espécie de folguedo popular, com sanfona, violão, pandeiro, zabumba entre outros instrumentos musicais numa cantoria muito animada. E de repente, quem eu avisto no meio do folguedo, tocando um pandeiro? Ele mesmo, o tio Nelson. E eu não havia dado falta dele, afinal criança não fica pensando no que e quem, vive a infância cada momento e vai crescendo. Mas naquele começo de noite eu pude ver o tio na farra junina a cantar e tocar. Corri para conferir se ele não estava lá na cama. Afinal, míope, acaba vendo coisas onde não há. A cama vazia confirmou, era mesmo o tio Nelson que eu vi passando na rua com seus amigos naquele festejar o São João. Devo, horas depois ter ido dormir e vagamente me vem que quando eu acordei no outro dia a minha tia em prantos comunicava para o resto da família que o tio Nelson, aquele mesmo que na noite anterior dançava e cantava depois de anos e anos de tosse seca e barulhenta, havia morrido dormindo. Muito medroso que eu era não quis mais entrar naquele quarto onde ele habitava e de vez em quando ainda punha o ouvido na porta fechada a escutar se ouvia alguma tosse. Mas acabei crescendo e nunca mais revi o tio animado daquela noite.


 

Tia Norma

Ela era do tipo “confuso” pele branca, cabelos bem negros, aparência de europeu com índio brasileiro e passou parte da sua juventude envolvida com a maio expressão de religiosidade e fé de sua época, para os parâmetros da terra onde nascera, a Bahia. Baiana do Candomblé, já tinhas seus mais de cinquenta anos talvez, quando vim a reconhece-la como irmã do meu pai de criação, de alguma maneira, minha tia. Tia Norma um doce de pessoa, lembro bem, em dias de calor eram pelos menos três banhos ao dia, com direito a troca de roupas e arranjos diferentes nas madeixas de ébano. Do Candomblé, herdou um “guia de cabeça” que lhe fazia uma “visita” pelo menos uma vez por semana e era neste exato dia que se formava uma fila na porta, de todo tipo de gente buscando tomar um passe espiritual quando não uma reza com folhas de arruda. Foi pra esse guia que fui entregue aos quatro ou cinco anos, quando penava com uma “ameba” que me deixava inchado e com sangramento anal. Foi o guia dela que ante as lágrimas da minha mãe sentenciou que eu iria sobreviver aquela doença e servir na “corrente das crianças”. Essa linguagem toda é muito dessa cultura baiana. Ou seja: “guia de cabeça”, “corrente das crianças” tudo isso se refere a essa cultura afrodescendente que quem é destes estado herdou dos tempos coloniais. Lembro que eu ficava da janela, afinal não poderia sair para rua, e orientava de pequeno, a entrada na casa, das pessoas que vinham se “consultar” com o guia da tia Norma, que depois do transe e quando todos se iam, comentava orgulhosa se um advogado ou professora (altas patentes na época) vieram se “consultar” com o Velho Juremeira, seu santo de cabeça. Tia Norma tinha um humor especial e algumas vezes a pegava dançando o estilo foxtrote, que depois soube ser um estilo de dança do seu tempo de adolescência. Mascando fumo de corda e cuspindo pelos cantos da casa de chão batido, seguia nos seus afazeres doméstico, entre eles cuidar dos sobrinhos que eram deixados na casa quando o povo saia para se aventurar pelo mundo, como foi o caso do meu pai e depois da minha mãe quando partiu para SP.  

 

 

Miopia 2 – A louca.

Começo de noite, a tardinha caindo com uma preguiça só. Um alvoroço na vizinhança e os gritos de “a louca tá nua!”. Para adultos talvez uma coisa normal, mas não para crianças curiosas como eu. A louca vinha caminhando pela estrada que ficava abaixo do terreno da a casa da tia. Só restou uma alternativa, para matar minha curiosidade em ver a louca e a nudez dela. Sorrateiramente subi no telhado de maneira que ninguém me visse. Acompanhei aquela mulher sem nem uma peça de roupa, nem sapato, nem nada, como se diz, estava como nasceu. Mas maldita miopia, enxergava bem pouco mas distingui entre suas coxas roliças um “tufo” de pelos negros e fiquei angustiado por que não vi a vagina dela. Não sabia como era, não fazia ideia do tamanho, da forma de nada. Desci de lá, cégo quase que sempre fui e decepcionado, com os coleguinhas da mesma idade fingia ter visto tudo e me vangloriava entre eles dizendo que tinha visto tudo, mas na minha mente só via aquele ponto negro entre suas pernas e das nádegas nem pude observar pois a minha tia que me descobriu ali, chamou-me pelo nome completo num tom repressor como quem diz: toma vergonha moleque.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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