quinta-feira, 22 de abril de 2021

Museu do Esquecimento

 

E corre assim...

 

 

“...Deus trinca a nuvem limpa

Que vejo crivada de luz

Na tinta...”.

 

Dentro deste museu

Durmo no agora

Então soturno, só durmo.

 

Ouvindo esse piano que vem do nada,

Cerzindo essas palavras do agora já

Quiçá do universo disperso,

Do que só agora transcrito,

Na batida, no atrito do verso

 

“...Entre a tinta e o papel

Transcrevo por aqui

Todas essas nuvens do céu”.

 

Como se tudo havendo lá

Acima de nossas cabeças

(Vibrações de células infindas)

Na nota aguda da sonoridade

Que ouço agora, nesta hora já.

Neste aqui, ali, lá.

 

E os meus dedos incansáveis

Dizem que é isso sim,

O dedilhar no ar

A aurora ali deixada

Aquilo que agora vem ser

Uma breve canção

Neste museu do esquecimento, então.

 


 

Ali estava eu de novo

A reinventar

Literais jogos de palavras

Entrave não entrave

Querendo “tudo” dizer

 

- Ave tropa alada

Travessa não atravessada -

Num céu de tintas cores

Num mar de infindas dores

 

Língua, horta de sons,

Plantada na garganta

Daquele que fala

Que debulha no jazz sujo

Daquilo que já foi surto

Em iguais construções

Donde solitário fujo

 

Diletas e singulares

Delatáveis ares, na aresta.

Que empresta

Métrica, compasso

Rimas do acaso

Na brancura vão,

Deste pensamento

Neste museu do esquecimento.

 

 

 

Mas...o que me dizes?

 

Poeta.

Há…que pena! Sou não.

 

Nos ares e seja lá o que será

Este lugar chamado ares,

No vácuo mesmo do som

Eis que surge

Essa parole, palavra prole

Esse caleidoscópio de sons

Tramas que se entrelaçam

Pelo gozo e tão somente

Por ele,

O gozo.

 

A chama se acende novamente

E já estou eu aqui “entre”

Como se imitasse Pã

Para lhe chamar

Vem!

Vida vã.


Haverá sentido

 

“...para aquilo que não se pensa,

Um nada crítico

Nem um tiquinho

Olha eu maninho...”

 

Mirando a borda da tarde

Quando a água corre, escorre

No engate

Das partes dela

Daquela que se faz pessoa

Em nossas vidas

Ela eu, eu ela.

 

Na brincadeira lã

Na manhã que é a tarde

Inversa só na poesia

No que havia há

Deste momento já

 

Na brincadeira vã

Do nem te desejo

Predicados, tens de fato

Feito pêra fruta, espera

Ou maçã, moça sã

Suaves pedaços de alegria

Tardante na viagem do d

E...

Mapeio a sala com meus instantes

Um café, um arfar de gente cansada,

Um nada de mim que se encontra

Com o inverso de tudo que sou eu

E consequentemente essa canção.

 

Canto canções de bem querer

Enquanto não chega a noite

Já que a tarde inversa

Na pressa do tempo,

Insiste em dizer.

 

É...

Noite não chega

Digo baixinho teu nome

Insone,

Vejo a vaga hora

A possível poesia

Neste mundo museu

Em que há, ...havia.

 

Correu o menino ao vento

 

E mirou o ouvido a ouvir

O zumbido da mata

De dentro

O alarido centro

De asas em pane

Dos mil elementos

Aves, pássaros,

Coisas que voam no tempo

...

 

Mas quem te calou

Ó moleque?

Foi mesmo o vento,

Bravio e sorrateiro

No oco da madeira.

Fez berro lento

No grotão do vale

 

Foi um chamado

Uma evocação

Coisas do nada das coisas

Brejo dos sentires sem razão

Ato de escrever por escrever

E ver

Que é possível então

Das doidas serpentes alojadas

no ventre de cada palavra mãe

nascer-se novamente

 


Por que era tempo de chorar

 

Deságua essa aguaceira

E molha, umedece tudo

Liquefaz essa canção

Que já não é

Que só que seja

Escreva

 

Dito: poeta!

Escreva.

 

Pois o papel branco a ser explorado

Aguarda-lhe.

 

Em guarda!!

 


Exercício do dizer

 

Que eu não digo

Que não lhe quero

Entre a côncava parte minha

Recebendo a protuberância

De tuas nádegas

 

A dilatar-se de fato

E nós no ato

Em tato osmose

Olfato

Não dizes que não

 

Faremos outros tratos

Outros contatos

Outros contratos

Outros sons

Outros atos

E diremos verdades

Sobre os fatos

 

E tuas coxas inexplicáveis

Como de fato, contemplo,

No templo,

A tua boca com meu paladar

 

Eu, o louco entre curvas,

Durmo um sono imprevisto

E acordo por acaso

No paraíso.


 

O sono imprevisto

 

 

Queria que eu escrevesse

Um poema

Antes de dormir

Poema este que falasse

Do homem que perdeu

O seu poema

Em algum lugar

Num canto por aí deixado

Quem sabe apenas no pensamento

E vento...

 

O tempo passou e ele, o poema,

Já não havia mais.

E quando a enxurrada delas, as palavras,

Veio-lhe,

Já era tarde

 

Já era fim e meio

Num papel rabiscado às pressas

Para irritar o pensante

Surgiu a ponta de um labirinto

Nas ideias

Para ninguém o perceber

Para ele invisível ser

Nas nuances desse jogo inventado

 

Para quase nada supor

Que palavras e ideias se concatenavam

Submersas, tímidas lá.

 

 

Arranquei de meu, um pedaço

 

E me desfiz

E safei-me de mim

Desligando-me do que havia

Do pedaço de mim

Do que eu fui

 

Busquei outros pedaços

Outros abraços

Persegui instâncias diversas

Outros vértices

Outras quebradas e nada

 

Eu que quase humano

Quase insano

Perdi-me nas vielas desta canção

Buscando-me em pedaços

Já ensandecido

Quase louco novamente

 Arranco de mim

 

 

PEDIDO

 

Peço-vos, perdão por amar-te

Por cometer-te

Neste ato

Voluntário involuntário

De sentimento torto

 

Onde então os meus sonhos,

Que gritam no deserto

Pulsão, compulsão

Pulso do mundo.

 

Onde andará

A musa que finge?

 

E a roda gira,

E a roda apenas roda

E o planeta trepida

Gritou-me:

É tarde! Vai deitar-te,

Vida.


 

Mas por que fiz isso?

 

 

Por que de mim um pedaço arranquei?

Embriagado pelas palavras

E sem saber bem por que

Tomei a atitude essa,

De arrancar um órgão meu

Um dedo,

Um dente,

Um signo

Um significado dentre

 

O riso que se expande

Acordo,

E não existindo o tempo

A similitude dele,

O se prometeu

O afeto

O afago

 

O diálogo que nos aprisiona

O verso que nos condensa

A brava aurora contempla

A Palavra manca

 

Que nos despe franca,

Por mais que ocultemos o sentido

Se joga no acaso e vai...

Vai indo doida

 

Catando coisas ali...

No ermo do nada

Da logorréia ali deixada

Intocada e incontida

 

Desdizer

 

E eu  me escondendo

Atrás das palavras

Querendo dizer

O que não quero dizer

Ocultando permutas vagas

Além da conta

Além do ler

 

E se volto ao pote

Da temperança

É para aguardar

Na quietude da ânsia

Uma circunstância

 

“...De um ciclope

Preso em sua caverna

A forjar no fogo, seu dom.”

 

 

Vê-se, vemos a máquina

 

Pousar na superfície do cometa

Nesse ontem, hoje

Na pressa em que me apresso

Apregôo

 

Eu que sou poeta

Que mamo da palavra

O leite, o azeite

O sumo

O escorrido mel.

 

Do cadafalso da estética

Sou atirado

E despenco na ribanceira do

Comunicar-me.

Não necessariamente contigo

Leitor,

Talvez quem sabe, comigo mesmo.

 

 

 

E eu me estico e recomeço

 

Na pressa em que me exponho

Ante a emboscada crassa

Do arredio sintoma

Do que nos prende e liberta

Horas, essa...

Quero-te embaixo dos cobertores

Das cobertas, no ócio

Palavra


 

O Improvável

 

 

Trago em mim de ti

Poucas palavras

O suficiente verso

Pra te dar um sentido

Um significado que sirva ao outro

Ao mesmo tempo eu de sempre

Que se configura, figura

Esse verso a mais na curva

Do bailado dela

Poesia, trova

Que tenta

Se configurar

Se definir em palavras

Pessoa inexata,

Tempo então, nem conto

Do meu ócio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dava-me um traço

 

Um significado

Um significante

A aurora na letra

Em que eu ali deixara

Enaltecida na lavra

No aquecido esquecido

Troféu

 

Amealhado no bronze

No verso, no ante verso

 

“...

Tomava a minha mão

E sentado quase ao meu lado

“Ensinava-me a escrever-te...”

 

Ver-te

Palavra


 

Combinado?

 

Então ficou combinado

Que após escovar os dentes

E lavar o rosto,

Enxugá-lo na toalha puída

Escreveria um poema que diz

Não sabe do tal, o tema

Que a verborragia,

Paisagem das letras entremeadas

Façam sentido

No zunido do zumbido

Da folha quente que

Ali me espera 

O que não esse si não

 

“...Que a canção existe

Pra chamar de amor

Que seja sedução

Assim como nos dá a rima...”

 


....E quem não bebe

Do teu lírio

Ó moça,

Fluida moça

No aos pés dos teus ouvidos

Permita-me

Prender-me em ti

Palavra

De intenções minhas...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Sinto-me liberto com as palavras

 

Como se ela, tábua salvadora,

Tal qual num oceano

Destes que vislumbram noite e dia

Calmarias e verdadeiros tufões

 

Liberto como num livreto

Aberto em que se escreve

Descreve cada ato

Panfleto

palavras

Como um diário? Pensaria.

Não.

 

Vivo em estado poético, eu que poenta não sou.

 

Do fim que é o começo de tudo

Não espero a porta

Sigo adiante

Como se o estacionar

Fosse entediante o suficiente

 

Antes

Então por isso

Sigamos à frente

Além

Mente...

“...Tá tudo tão perfeito

Que a brisa que bate leve

Mal sabe o quanto embala

Sonhos aqui e devaneios...”

 

 

Um verde tão verde

 

E calmo,

Abrevia a sombra

E sobre ela nossa casa

Cheia de nós

 

Acolhemos livros, palavras,

Coisas, necessidades

 

Entre a sombra e a  luz da copa

Dessa majestosa árvore da qual

Nem sei o nome,

...

 

São mansas árvores até,

E o sol forte e bravio penetra

Sem dó, suas entremeanças

De árvore frondosa

Que diz, estou aqui.

 

No se abrevia conformada

Mansa que é,

A luzir mesmo assim.

Como se ela fosse árvore e sol

Ao mesmo tempo

É isso que me move.

 

 


 

“...Absolutamente

Tudo é escrita,

Pois se te reconheço

Como código, apenas...”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tem um lugar delicado

 

Que sou eu mesmo

Onde nenhum gesto involuntário

Nenhuma canção,

Por menor que seja,

Por assim dizer

Me censure voluntariamente.

 

E como se ouvisse pássaros dentro

Do apartamento

Não!

É apenas o vento

Diria aquele neste momento

Não! É apenas o vento

 

 


(....)

 


O Sempre

 

O tempo presente não é,

Infelizmente, de comunhão.

É um tempo de sempre,

de guerras à festa de celebração.

Somos muito engraçados, muito engraçados.

E trágicos.

E por assim ser, melhor dizer:

Somos tragicômicos, por que não?

 

As dores humanas se processam

De cada um de nós.

Mais tecnologia, mais sabedoria

Mais aferição,

 Cientistas concluindo

A partir no nosso gen,

Nosso destino fim.

 

Eu não diria final dos tempos,

Falaria de finitude deste raciocínio.

Tudo são palavras. Não?

 

 

Então me encare,

Me olhe de frente,

Felizmente ou infelizmente,

E sigamos à frente.

 

Leitores, ouvintes,

Testemunhas,

Cada um de nós,

Os que têm voz,

Os que voz não tem.

 

Tempo de desesperança

Diriam alguns,

Tempo de sempre

Diríamos nós.

 

Esse tempo

Como tantos outros,

Dirão os incautos, enfim.

Constatação do medo

Que herdamos

E levamos conosco

No sempre.

 

 

 

 

 

Escrevo

 

Se não quero escrever,

Escrevo.

Se apenas penso em escrever,

Trevo, travessão,

A canção anunciada pela boca,

Se instaura.

 

Hora outra

Se neste indesejado

Desarranjo

No que mais desejo

Pranto, protesto, reclamação.

 

E a canção revelada

Se mostra grafada

No céu,

Na área em branco

No micro universo

Da folha de papel.

 

 

 

 

 

Se a hora não é essa,

Na pressa.

Escrevo.

Se não desejava escrever,

Faço-o sem restrições.

 

Se não nem a sonoridade,

Que me escapa,

Torna na trava,

Da trova,

Do que é simples canção

 

Aceno, no início do todo,

Na tarde.

E tem que ser nela,

Que se instaura bela.

 

 

 


Já não era mais à tarde

 

Dizendo feito mote

Feito motor

Que lhe coloca

Digamos assim,

Na circunstância?

Quem está  batendo na porta?

A tarde!

Olá dona tarde, boa tarde,

 

E consigo mesmo

No desenrolar das horas

Solfeja um verso aqui

Ali

 

Falando da tarde

Que outra é

Num poema do passado

Caia-lhe como melancólico

Instante

Mas neste presente, inclemente.

Menos sábio e mais ouvinte

Cantamos aqui

ali

Um verso prosa

Com nós amigos do início

De tudo isso

 

Pretendo revelar sentimentos

Mas quanto mais duras

As palavras

Rebelam na porta do agora

E ecoam sim

Reverberam tão forte

Que se misturam

Ao todo do dizer

Volte ao  moto

Dom Quixote das vogais

Letra absurso!

Desejo mudo,

Anti herói do solfejo

Vejo

Desejo

Esqueço

 

 

Garganteador do verso

Hora por que não dizer

Outra vez,

Já não era mais a tarde

De sempre.

 

Vazante, dormente

Até dolorida as vezes.

Não, já não é mais a tarde

A mesma tarde

Que agora viva-se

Presente

Instante

Solta um silvo

Uma baforada

Um beijo em quem namoras

Na música que ouves agora

Mas

Já não é mais a mesma

Tarde

Não

 

 

 

 

“É hora do verso

Falho

Da palavra manca”

Do sentimento falso

Sacolejante braço,

Que se expande na cena

 

Na tinta que lhe confere

Significado neste Universo

De buscas, procuras,

Procuras, buscas

E um pouco mais

 

Hora do jazz

Take on

Take five

Decretada a hora de deixar

Os naipes de metais daquela

Banda de jazz tocar

 

E contaminar o ar

O instante com sua pancada certeira

Do presente,

Para quem agora há

No sempre

Na dança manca

 

 

Não há muito

O Amanhã,

Há o hoje

O agora já.

 

Redundante

Hora que se vai

Se desenhando num plano

Numa meta

Numa direção

 

Não é poema nem canção

Cinema não é

Esqueça.

 

E teça comigo

Outros planos

As sobras dos nossos enganos

Do nosso tempo ganho

Na estrada.

 

Na ponte que se fez

Por simples amor

Olha o verso

Soprado ali

“o farfalhar de folhas

Bolhas,

Pó!

O entrelaçar de tramas

De contas no verso

 

 

 

Não há muito

O amanhã,

Há o hoje

O agora.

 

Redundante

Hora que se vai

Desenhando num plano

Numa meta

Numa direção.

 

E teça comigo

Novos planos

Na então

Algazarra

Na farra mesmo

Assustada

 

O poema pirou

Disse nada!

As sombras dos nossos enganos

Do nosso tempo ganho

No aqui agora

Nessa hora

Aqui já.

Na parte que se fez

No simples

Por simples amor

Olha o verso sobrando ali, vê

O farfalhar de folhas

Bolhas,

Pó!”

O entrelaçar de tramas

Poeira entre paineira

Colar de contas no verso

 

anverso

Do reverso

Verso”

 

 

Na outra vez que fui dama

 

Na cena do verso

Por lhe mostrar, além da plana

Visão

A linha entre nós

E tudo o que há

No entorno

Que nos impele

Pro bem

Pro zen

e toquemos em frente

Disse a mãe.

Na cachoeira a correr pro mar.

 


Para a cadela Bela

I

O tempo passa mais rápido

Na vida biológica dos cachorros

É a lógica,

E ela estar velha, pois

Tem apenas quatorze anos

Mas, esta velha.

A Bela,

Antes Belinha

 

Cachorros são anjos

Que passam por aqui

As vezes latem

As vezes mordem, as vezes uivam.

As vezes e apenas as vezes

Ficam por ali,

Ao nosso lado estando, a sorrir.

 

E feito mulata em dia de desfile

De carnaval

Mostram a alegria balançando

O traseiro com vivacidade.

 

 

Você dá abraço, dá beijo

E ralha quando cometem algum deslize.

 

Bela você está velha,

E não tarde teremos que nos despedir

Nunca sabemos se antes você

Ou antes eu.

 

P.S. Belinha se foi num agosto de um ano ai.

 


 

O tempo, sucessão de fatos, como diz

II

Em algum lugar, Cecília Meireles.

Tempo de calor abrasador

Tempo do frio

Tempo do lúdico em nós

Tempo de festa

Tempo de reflexão

Tempo de roncar como uma velha

Tempo de esperar por um pão

Bela você é velha

Indo-se aos poucos

Pra longe do nosso convívio

Certeza que bem já dizia

Se não latisse apenas

Que por aqui nem gostaria

De estar

Mas quem determina

Hora e dia

 

Incompletude

 

A busca é sempre um meio

De se encontrar algo

Que não necessariamente

Está à mostra

A busca então se torna

Se não um tempo ao tempo

Daquilo que se procura

Em cada canto

Onde se supunha estar

O que buscamos.

 

A nave no lá

A aurora anunciada

Tua face então deixada

No reflexo do espelho

No centro do cerne

De minha questão

 

A busca é

Um fim e um meio

Quando o desencontrar

Torna-se motivação

Da procura

Pelo que então virá a ser

 

 

 

 

 

Nasci de uma atração

Entre duas pessoas

E tornei o resultado

Daquilo tudo

A atração que se fez

Evento

Acontecimento

Entre aqueles que quiseram

Gerar alguma coisa

E depois pensei:

Essa coisa sou eu

Incompleta e incerta

Como o céu que

Abre-se sobre nossas cabeças

 

 

Lá no longe

O alarido dos pequeninos

Abre a janela

Para possibilidades

Saídas e entradas

Não necessariamente

Buscadas

Somente resultados

Faltantes

 

 


Cara na minha cara

Fala na minha fala

Trava na minha trova

Onde ela se instaurou

Aquela mesmo

Orgasmo de sensações

Do verbo

 

 

Palavra tagarela

Que fala por si

Enseja, reversa

Diz que se diz

De si mesma

Ora veja

Ressalte, reveja

Nosso sono

Mais que iluminado

 

Não que se quisesse

Fazer presente

Se instaurar

Na lente do instante

Naquela hora ali

Regozijava-se

Consigo mesmo

 

 

Vai daí

Que hora menos hora

Um certo grau de lucidez

Se faz em sua mente

E que você

Na busca desse complemento

Que nunca chega

Que nunca vem

Mais e mais dá passos

À frente do que seria

Então somente

Lugar

Mas o Planeta Terra

É lugar nenhum

Por onde navega

Você e sua rima

seu sono

Você aí e sua perda

Você e seu pesadelo

Oras essa

Mas quem estaria

Por assim dizer:

Com pressa

De chegar a nenhum lugar

 

Abriu-se novamente

A fresta da ferida

E rebrilhada

Com a luz que vem das pedras

Com o reflexo

Dessa jornada

É que te alegra

O pensar, o pensar

Esse irresponsável ser

Fora de si

Louco por assim dizer

Louco de pedra

Como diriam alguns

 

Eu não estaria

Perdido comigo mesmo

Se não fosse o vento

Que me trouxe no seu bojo

E me indicou dos males

Essa empreitada

Rimas no nada

Tocas no fundo

Do que ainda restou

Clamas pelo que seria

Quem sabe afeto

E no entanto

Clamas sozinho

Inda clamas.

 

 

Impossível não olha em tua face

Ver que muito nela mudou

Que o sol por décadas

Queimou sua pele e agora

Ela ressecada envolve em

Rugas e rugas lembram o tempo

Mas também que este tempo

Reúne histórias de nós

De todos

Como se fosse preciso

Vivê-lo efetivamente

Para então, presente hoje

Constatar em nós

O não tempo da irmandade

Daquilo nos fez feliz

Das pessoas que se envolveram

Nessa nossa história familiar

No ar, no céu, nosso oceano

De horas

Acordemos então para o presente

E mesmo com o rosto enrugado

Sentirmos, por que não

Conservados

Como uma sardinha em lata

Que tem prazo de validade

Parece que nosso tempo venceu

Mas que no entanto

Continuamos vivos pelo simples

Fatos de que eu sei que você

Se encontra por ai

Como um artigo numa vitrine e

Eu sigo por aqui

A escrever crimes do existir talvez.

 

 

Encontrasse eu, uma saída

Uma porta aberta

Uma rota de fuga

Pra um outro lugar

Mas...

O último fragmento que

Captei sobre mim mesmo

Foi o fragmento de dor

Que resolveu se apresentar

Em parte do meu corpo

Como quem chama atenção

Pra si mesma.

A dor se estabelece acima do

Que conseguimos pensar,

E não bastam recomendações médicas,

Comprimidos disso e daquilo,

A dor é sentida e ponto

Não há saída.

Por isso em mais um dia

O terceiro com ela presente

Em mim ainda é um corpo

O incompleto,

O por fazer,

A busca de sempre

O buscar até onde

Nem se imagina

A felicidade alcançada

E a felicidade já usufruída

Que fez efeito em mim

Que agora, egoísta mesmo,

Já busca outras formas

De felicidade

E não há parâmetro

Não há medida

Não há tamanho

Essa que seria

A felicidade que buscamos

 

Descartável

Assim são estes tempos de agora

Onde tudo é meio descartável

O amor em alta

O amor em baixa

É descartável

O sábio, o gênio

Com o sem lâmpada

Descartável

O homem do campo

O home  da cidade

O cinema

Descartáveis

O argumento a absolvição

Descartáveis

O perdão.  A indignação

Descartáveis

Tudo, tudo caminho

Pro descarte, pro lixo

Que reverbera no esáço

Existente

O que é essencial e o

Descartável

Lições de amor, ingratidão

Dor

Descartáveis

A hora essa, a mesma

O riso, a pressa

A derrocada

O desgelo dos continentes gelados

A feira livre

O ladrão que passa ao lado

O rumor de agora

O temor de ontem

Tudo se apresenta

Descartáveis

 

 

Incompleto céu

Incompleto saber

Quando me buscas

Incompleto teor quando

Me explicas à alguém

Incompleto sentido

Quando traduzes o que

Não digo

Incompleto eu

Incompleto você

Que não se resolve

Da noite pro dia

E adia as definições

Ao pé da letra

 

 

 

Ficam incompletos,

A noite,

O dia,

A narrativa que se inicia.

 

Incompletos,

Os medos,

Os desejos,

O sonho que de abrevia.

 

Incompletas

As palavras

Intenções

E discursos ante a

Pra que serviram-me as palavras

Se não fosse para contestar?

Contestar governos corruptos

Espertalhões políticos que abusam

Da ingenuidade do Povo

Do que serviram-me as palavras

Se não fosse para protestar

Contra a falta de humanidade

Em alguns líderes da Nação?

Do que me serviram as palavras

Se não fosse para dizer

Como os índios:

Parem de nos matar

Do que serviram as palavras

Se não fosse pra denunciar?

Denunciar a mortandade da

Vida marítima causada pela

Poluição que despejamos

Nos oceanos

Do que serviram as palavras

Se não fosse  para alertar

Aos desavisados

Sobre a doença humana

De  judiar dos animais indefesos

Do que serviram as palavras

Se não fosse para despertar

O inocente

 

 

Eu me furtei de te encontrar

Queria não

Rever-te entre céu e mar

Estrela alvissareira lá

Solitária então, quem desejará

 

Eu me furtei de te buscar

No reduto mais distante

Na nau a deriva em alto mar

Nas possibilidades todas

No desencontro tonto

De não saber nem se entrever

A ti criança mimada

 

Eu me furtei do teu sol

Da tua luz

E até mesmo das nossas lembranças

Mais recônditas

 

Eu fui me furtando

Da sua presença

E escolhi não escolher

O nossos olhos veem

Ao olhar um na direção do outro

Eu fui o outro

Se desfazendo em gotículas de

Nada no nada

Ao sol di meio dia.

 

Agora que o mundo acabou

Que não há nem céu nem chão

Que o mar despareceu e

Que o sol no Universo se escondeu

Tudo é escuridão

 

Agora que não há mais história

Nem derrota nem glória

Que vida não há

Resta a memória do que foi

Que seria

No então haverá de ser

Um jamais sem conta

 

Uma mente ainda doentia

Intui o amanhã,

Mas amanhã não haverá

A música que foi tocada

A tela que foi pintada

O filme que foi realizado

O texto que foi escrito

O livro que foi publicado

Foi nada então que restou

 

Não há mais a frente, nem o verso

Não há o acima nem o abaixo

Não há o que se perdeu

Nem o que se encontrou

 

Não há mais amor

E o ódio se acabou

A ideia de Deus ficou

Lá onde sempre esteve

E o inferno extinguiu-se

Num efeito especial de um

Filme de Tarantino

 

Não há mais menina

Nem menino há

Os sexos agora não vigoram

Apenas uma nave sem rumo

E quase sem provimento

Distancia-se além Cosmo

Levando algumas informações

Do que aqui havia

Não há horas, momentos

Dias

Não há nem palavra

Para contar o que

Aqui se passou

Por que essa escrita vem

Da nave onde estou

Mero e velho

Computador nesta nave

Sem rumo vou.

 

 J. Cordeirovich

 

 

 

 

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